domingo, 24 de julho de 2011

Uma fala unificada da Jurema Sagrada é possível?

Mãe Terezinha Bulhões firmando Jurema aos pés da Cidade de Maria do Acaes. Alhandra/PB 2008. Foto de Mariana Lima.*


Uma fala unificada da Jurema Sagrada é possível?
Observações sobre a Jurema e os posicionamentos de seu povo no 5° Encontro Pernambucano de Mulheres de Terreiro

*Alexandre L'Omi L'Odò.

Ao participar do 5° Encontro Pernambucano de Mulheres de Terreiro, que aconteceu de 20 a 22 de julho de 2011 no Auditório do Ministério Público de PE, Centro Cultural Rossini Alves Couto, no centro do Recife, pude assistir pessoalmente a uma das falas mais arbitrárias sobre a Jurema que já pude assistir.

No último dia do evento (22/07), na mesa de encerramento que reuniu diversas representações dos segmentos das religiões de matrizes africanas e indígenas, estiveram personalidades como Mãe Nice de Oyá, da Casa Branca do Engenho Velho/BA, e a Makota Valdina/BA, que deram falas surpreendentes neste encerramento.

Com a falta de representatividades da Umbanda e da Jurema Sagrada na mesa, a coordenadora do evento, Vera Baroni, convidou as mulheres presentes, que fossem destes segmentos para tomar assento. Representando a Umbanda não foi ninguém infelizmente, e para representar a Jurema Sagrada foi a senhora Nice (Aurenice), que é cultuadora da Jurema.

Na fala desta última, pudemos assistir uma retórica das mais arbitrárias possíveis em relação à Jurema e aos seus conceitos teológicos. Mesmo eu sendo muito jovem de idade quanto de idade de iniciação, pude me deparar com uma fala que desconstrói de forma irresponsável um trabalho de mais de sete anos do Quilombo Cultural Malunguinho e dos juremeiros e juremeiras que durante este tempo puderam dar contribuições para o fortalecimento desta religião no cenário político e das discussões teológicas. Mesmo podendo ouvir falas como: "é importante ter falas que criam um contra ponto às já estabelecidas", ou "a fala dela foi diferente, e meio arrogante, mas foi boa", pude perceber que o povo da Jurema, está ainda longe de chegar a uma compreensão do que é de fato esta religião e sua importância no atual cenário das religiões de terreiro.

Sei que as fontes de pesquisa são poucas, e que os antigos Juremeiros e Juremeiras estão falecendo sem deixar os conhecimentos desta religião bem estruturados em seus discípulos, mas nada disso nos impede que possamos buscá-la na essência e podermos construir um entendimento coletivo bem construído no tocante a sua essência teológica e ética, também, à sua história. Estudar a Jurema se faz muito necessário hoje, pois precisamos entendê-la mais, registrá-la mais, para darmos novos rumos e salvaguardarmos o que restou dela.

Falas como "o juremeiro não usa ilú (instrumento para realizar os toques nos terreiros de Pernambuco)", ou que "o juremeiro tem que ter a fumaça circulando em sua cabeça", deixou a platéia de babalorixás e iyalorixás, juremeiros e juremeiras, umbandistas e convidados em polvorosa. Pude ouvir diversos comentários, como por exemplo, o que "ela é louca é?", "ela não sabe de nada...", “ela não é filha de quem ta dizendo", "a fala dela é muito agressiva" etc. Vi pessoas o tempo todo criticando e observando com atenção o que ali naquele momento acontecia... O que mais marcou essa situação toda, foi que ela foi convidada como representante da Jurema de Pernambuco, enquanto mulher. Isso me preocupou muito...

Será mesmo que todos os terreiros de Jurema estão errados em realizarem suas práticas como o fazem estes anos todos? Na fala da senhora Aurenice ficou claro que muitas destas práticas não são coisas de juremeiro ou juremeira. Tiro como exemplo a casa de Mãe Biliu que tem 105 anos de idade e mais de 90 anos de Jurema, que ainda trabalha (recebe em terra) com seu caboclo Manuel de Ororubá. Na casa dela, se toca Ilú na Jurema... Ela usa torso... E pratica a Jurema bem antes, muito tempo antes, de muitos de nós todos. Será que isso não quer dizer nada mesmo? Será que isso não é um indício de que a Jurema tem forma litúrgica? Acho bom refletirmos...

Outra coisa que pude também assistir foi a omissão ou passividade dos juremeiros e juremeiras da Paraíba, que estavam presentes em certa quantidade e não se pronunciaram em nada. Fiquei tentando entender os motivos, mas não pude achar nenhum satisfatório para mim. Pois jamais veria alguém falar de minha religião de forma errônea ou precipitada sem intervir, sobretudo para tentar construir algum entendimento válido às pessoas que ainda não conhecem o culto da Jurema como uma religião. Ainda para que estas pessoas não pudessem levar ou aprender conceitos e informações equivocadas, que não refletem uma realidade contemporânea.

Só não tomei uma atitude de intervenção naquele momento, mesmo tendo descido até a primeira fileira de cadeiras para pedir a fala, porque, respirei algumas vezes para não tornar daquele momento um burburinho com discussões severas sobre as concepções discutidas. Também, não o fiz porque após a fala da Makota Valdina, que de certa forma legitimou a fala da Aurenice, mesmo sem que esta legitimação fosse fundamentada nos conhecimentos sobre a Jurema e sua realidade, fala que ela mesma disse "estamos ainda conhecendo estas religiões e diversidade", tentei me acalmar e deixar em silêncio minhas indignações. Apenas por respeito às mais velhas e mais velhos presentes e ao equilíbrio (paz) do evento como um todo.

Mas, contudo, este ocorrido me deixou muito inquieto e me pôs a refletir sobre a Jurema como uma religião que está de fato perdida entre nós mesmos. Isso é uma infelicidade. Pois o que podemos conferir no dia a dia dessa batalha por fortalecimento e reconhecimento da Jurema como uma "Religião que Merece Respeito", é que o povo da Jurema está ainda em processo lento de discussão sobre suas temáticas todas. Estes mais de sete anos de trabalho do Quilombo Cultural Malunguinho, foram importantes para despertar estas discussões e conferir aos juremeiros e juremeiras uma perspectiva de construção fundamental para o caminhar nesta luta que ainda precisará de muitos anos para se equilibrar, no mínimo.

Olhar e observar é bom. Meus ensinamentos dentro da Jurema são estes: "o mundo só é ruim para quem não sabe esperar", e isso naquele momento me fez refletir e ficar apenas esperando... Olhando os outros e outras, vendo o quanto essa luta é importante para a dignificação de nossos ancestrais, que lá no passado, nas tribos indígenas e nas casas de Jurema construíram uma história de muita força e importância. Este é o tesouro, que devemos cuidar como se fosse um filho ou filha em nossos braços, sem vacilar e deixá-los cair.

Uma fala unificada e fortalecida do povo da Jurema Sagrada um dia será possível, espero. Mas para isso precisamos discutir sem deixar os egos e as "tradições" nos consumirem e nos cegarem.

E hoje, ao escrever estas linhas lembrei deste segmento de Jurema cantado para invocá-la:

"Cadê a força da Jurema, onde é que ela está? Ta no tronco da Jurema, ta na Cidade Real (...)".

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*Foto que registra um dos últimos momentos em que uma juremeira firma Jurema aos pés da Cidade (árvore de Jurema Preta onde foi firmada a ciência da Jurema de Maria do Acais) de Maria do Acaes em Alhandra na Paraíba. Este registro foi possível através da organização do 1° Encontro de Juremeiros em Alhandra - "Vamos Salvar o Acaes", organizado pelo Quilombo Cultural Malunguinho em 2008. Após este evento, este patrimônio do povo da Jurema foi destruído por tratores pelo dono atual das terras do Sítio do Acaes. Este fato foi um crime histórico à memoria e ao patrimônio material e imaterial da Jurema Sagrada.

*Alexandre L'Omi L'Odò - Juremeiro e Egbomi, estudante de História pela UNICAP.

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

sábado, 25 de junho de 2011

Reflexão sobre A Marcha para Jesus.

O Professor Carlos Thomás vem dado ao longo dos ultimos 5 anos uma contribuição muito importante as causas LGBT e Afrodescendente em Pernambuco, seus textos nos leva a enxergar de outro angulo uma realidade que está de pano de fundo de muitas manifestações de preconceito e racismo:



Marcha para Jesus ou para matar?


A Marcha para Jesus nasceu em Londres, no ano de 1987, fundada pelo pastor Roger Forster, após a primeira outras tantas já aconteceram e vem acontecendo, inclusive aqui no Brasil, como foi o caso da 19ª ocorrida em São Paulo que atraiu aproximadamente 1 milhão de pessoas de vários credos cristãos.

Dentre os objetivos da Marcha está o de trazer as igrejas para a rua, porém a de São Paulo não teve só esse objetivo, pois entre outros estava o de pregar o ódio aos homossexuais, a crítica à decisão do STF do direito à união estável entre pessoas do mesmo sexo e o veto ao PL 122. Tudo isso promovido pelos lideres evangélicos, ou melhor, pseudo-evangélicos como Bispo Crivella, Pastor Malafaia e certamente com o aval do deputado Bolsonaro.


De acordo com meus cálculos se cada 1 pessoa da Marcha para Jesus incitada pelo discurso desses senhores resolvesse aderir à fala deles, teríamos 1 homossexual morto à pauladas, “lampadadas”, facadas ou tiros, resultando, assim , aproximadamente 1 milhão de homossexuais mortos. Tudo isso pelo simples fato do ódio pregado “em nome de Jesus”, justamente em nome do homem que foi crucificado e morto por ser oposição à opressão, às injustiças, às discriminações e à falta de amor ao próximo.


Uma contradição desses líderes à própria ideologia da doutrina do Cristo verdadeiro. O Brasil vive atualmente uma efervescência do Cristianismo com força maior no Protestantismo, isso tem atraído muita gente para as religiões evangélicas, o que deveria ser “uma bênção” (expressão usada pelos cristãos para se referir a coisas boas), mas que do meu ponto de vista não tem sido, isso porque as pregações e os discursos usados por alguns “servos do Senhor”, estão carregados de ódio, machismos, racismos, intolerâncias e homofobia; colocando em risco a paz e o amor tão pregados pelo nosso senhor Jesus Cristo, desse modo estão abandonando o verdadeiro Cristianismo que versa sobre o amor incondicional (ver episódio de Madalena e o apedrejamento assim como o do espinho da carne de Paulo), sobre o amor altruísta, sobre a caridade, e em oposição a isso reforçam violência.


Na Marcha para Jesus em São Paulo os líderes religiosos Malafaia e Crivella incitavam com seus discursos o povo à violência aos homossexuais, e quando se trata de povo, deve-se ter cuidado como se faz oposição a qualquer assunto, pois as conseqüências podem ser danosas.


O Cristianismo aqui no Brasil precisa ser repensado, re-avaliado, pois se isso não ocorrer, em pouco tempo seremos testemunhas de chacinas a homossexuais, a usuários de maconha, a povos de Religião de Matrizes Africana e Indígena e a toda pessoa que não comungue do mesmo pensamento pseudo-cristão, e tudo isso ocorrerá “em nome de Deus”, o que é um grande equivoco, pois o verdadeiro Cristo Jesus não é e nunca foi racista, homofóbico, machista e intolerante. Muita paz, muito axé.

Prof. Carlos Tomaz - carlinhostomaz@hotmail.com
Coordenação de formação da REDE AFRO LGBT
Ativista do MNU-PE
Membro do Forum Estadual de Educação Etnicorracial de PE.

sábado, 18 de junho de 2011

"Galo Preto, O Menestrel Do Coco" - Release Oficial do Filme

Release do Filme/Documentário
“Galo Preto, O Menestrel do Coco”.

Nascido em 1935, no hoje reconhecido Quilombo de Rainha Isabel no município de Bom Conselho de Papa Caças, agreste meridional de Pernambuco, cresceu o menino Galo Preto, que herdou de sua família toda tradição do coco sertanejo e brejeiro, também da poesia de repente e embolada. Típico cantador de coco, resguarda em si o traço genético da percussão e da criatividade virtuosa do repente, além da história dos seus antepassados, cantadores tradicionais.

O filme/documentário, “Galo Preto, o Menestrel do Coco”, 46’min., do cineasta e roteirista Wilson Freire, conta a história do senhor Tomaz Aquino Leão, Mestre Galo Preto, que é o último representante vivo e ativo da tradição do coco do Quilombo de Rainha Isabel e da tradição de sua família. Com roteiro e pesquisa surpreendentes, cheio de surpresas e informações preciosas, que remontam à história do ritmo musical conhecido como coco e da música popular no país, trazendo à luz, personagens incríveis de seu convívio, este documento audiovisual torna-se uma peça indispensável para o avanço do reconhecimento dos grandes mestres negros e índios das culturas tradicionais. Além de ser um elemento que garante a preservação da memória deste singular artista que fez do coco e da embolada, enfim, da música, sua vida. Aos 75 anos de idade, o Mestre Galo Preto, continua ativo e criativo, dando à cultura que pertence, a perspectiva de continuidade e, é acima de tudo, um patrimônio de todos os brasileiros, merecendo este reconhecimento.

O filme, ainda, revela segredos guardados há décadas e remonta uma linha do tempo do negro na mídia nacional, sobretudo na resistência do coco, como elemento de auto-estima e referência da música pernambucana para a construção de novos rumos no mercado musical das décadas de 1960 a 1990.
Este registro nos traz informações valiosas de pesquisa e das relações artísticas culturais entre os pernambucanos.

O Mestre Galo Preto aceitou realizar este filme para garantir a salvaguarda de sua história e tradição, que como missão de vida, pretende deixar para os mais novos, para que nunca morra esta cultura que ele mesmo diz ser “negra/indígena e pernambucana de seus ancestrais”.

Registrar, em audiovisual, parte desta história e oralidade é contribuir para que essa memória se mantenha viva e dinâmica, que ela possa dar luz a novos pensamentos, que ela possa contribuir para a perpetuação do coco.

Lançamento Oficial: 24 de Junho de 2011 – Nascedouro de Peixinhos às 19h.
Informações: 55 81 8887-1496 / alexandrelomilodo@gmail.com
Valor para compra: R$: 20


Ficha técnica do Filme/Documentário “Galo Preto, O
Menestrel do Coco”.

Roteiro e Direção: Wilson Freire
Pesquisa, produção e pós-produção: Alexandre L’Omi L’Odò
Produção: Fernando Lucas
Produção Executiva: Hamilton Costa Filho
Fotografia: Hamilton Costa Filho, Marcelo Pedroso, Mariano Pickman,
Mariano Maestre, Daniel Aragão e Léo
Assistentes: Andrenalina, Rafael Cabral e Pá
Som Direto: Rafael Travassos, Philipe Cabeça e Nicolau
Edição e Montagem: Alessandra Patrícia e Herivelton Santos
Finalização: Pingo
Realização: Cabra Quente Filmes, Bode Espiatório Filmes e Quilombo Cultural
Malunguinho.
Apoio: Candeeiro Filmes, Alexandre L’Omi L’Odò Produções e TRANSCOL.

Prefeitura da Cidade do Recife: Um projeto aprovado pelo SIC (Sistema de
Incentivo à Cultura) do Recife 2008.

Fotos: Roberta Guimarães.


Alexandre L'Omi L'Odò
Produção.
alexandrelomilodo@gmail.com

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Grupo de Teatro de Fantoche Baobá comemorando o dia dessa grande árvore


O Baobá, testemunha do nosso tempo!

Um dos grandes legados da África ao mundo é sem duvida o Baobá Andasonia digitata como é conhecido no meio cientifico, é uma das árvores que tem o maior tempo de vida na terra, um referencial simbólico da longevidade e, sobretudo de ancestralidade, algumas espécies chegam a ter mais de 3.000 mil anos, testemunharam em seu “silêncio” todo processo histórico do ser humano, tem sua origem em Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, Zimbábue, Botsuana e Senegal onde é o principal símbolo deste pais, provavelmente chegou ao Brasil juntamente com a entrada de milhões de negros e negras que aqui chegaram como mão de obra escrava, O Conde Mauricio de Nassau plantou alguns exemplares em seu jardim Botânico, há registro que o Dr. Manuel Arruda da Câmara escreveu ao Príncipe regente em 1810 aconselhando a introdução da árvore no Brasil, em 1874 Francisco Augusto da Costa descreve o Baobá existente na Praça da República em matéria do Diário de Pernambuco no dia 12 de maio.

Pernambuco hoje é o território de maior concentração de Baobás do mundo depois da África, constatação feita por Dr. John Rashford do College of Charleston da Califórnia - EUA e para nós afros descendentes representa a manutenção da nossa memória histórica e cultural.
Em todos os cantos do Brasil teve a presença de negros e negros, os registros seja na dança, culinária, tecnologia, linguagem, expressões da cultura popular, uma verdadeira simbiose cultural foi estruturada pelas várias etnias que aqui chegaram e todas sem exceção têm no Baobá algum referencial simbólico seja ele cultural, religioso ou étnico.

Era nas sombras dos imensos Baobás que a história das etnias eram repassadas pelos “Griôs” ou Kibandas, anciãos responsáveis pela manutenção da história local, um verdadeiro arquivo vivo e o grande Baobá era a testemunha do tempo.

Plantar um Baobá significa fortalecer a luta pela reparação dos povos afros descendentes, que durante muitos anos foram excluídos de qualquer implementação de políticas públicas direcionadas a valorização e reconhecimento da cultura afro-brasileira, como plantam os pesquisadores Professor Osvaldo Martins Engenheiro-Agronômo da Universidade Federal Rural de PE e membro da Academia Pernambucana de Ciência Agronômica, Fernando Batista da Universidade Federal de PE comprometidos com a preservação e difusão desta arvore, bem como a Professora Célia Cabral da Costa Arruda que efetivam ações afirmativas para implementação da lei 11.639/2007. O Decreto federal 5.5795/1995 que institui o dia nacional do Baobá em 19 de junho.

João Monteiro
Historiador, Especialista em Preservação de Acervos, Coordenação do Quilombo Cultural Malunguinho

Um Pé de Quê Baobá Parte 1

Um Pé de Quê Baobá Parte 2

sábado, 11 de junho de 2011

Patrimônio Afro religioso em alerta!

Mãos de Ifatoogùn, Paulo Bráz Criôt do Ministério da Cultura e Kimbanda do Quilombo Cultural de Malunguinho.



“A EMPETUR dá inicio às ações do projeto de Turismo Étnico, dando destaque após visita técnica ao Terreiro Ylê Axé Airá Ibona, em Pirapama", insiste dizendo que, o referido “Terreiro foi fundado onde no passado eram Terras do Barão de Pirapama” (publicado do Diário Oficial do Estado de Pernambuco dia 10, pg.02) com total respaldo do Antropólogo Raul Lody, ficando claro a total falta de comprometimento deste com as verdadeiras tradições de Pernambuco, a matéria ainda traz uma fala da Yalorixá do Terreiro dizendo que:"Trazer turistas para nosso terreiro vai ajudar na renda que precisamos para manter o espaço e as pessoas vão conhecer melhor nossa cultura". desde quando o povo de Terreiro precisou de turistas para se manterem? Acredito neste projeto, pois entendo ser necessário ao programa de inclusão e reparação histórica que os gestores governamentais alardearam durante a campanha eleitoral, só que temos que ficar alerta para nossa história não virar contos da Carojinha, ser o exótico, como foi tratada a “Venuus noire”, Saartjie em 1810 que virou objeto de entretenimento da nobreza e chamou a atenção dos cientistas e atração de circo(Diário de Pernambuco, pg.F3) é assim que sempre fomos tratados pelos descendentes da falsa nobreza portuguesa e agora os mesmo querem se locupletar de nossa cultura religiosa.

No canal www.youtube.com/empeturpress, o dito antropólogo faz suas considerações.

Bom, escrevo estas breves linhas para registrar nossa insatisfação com os Sacerdotes e sacerdotisas tradicionais que insistem em serem massa de manobra, mesmo com tantas reuniões, cursos, encontros e caminhadas alguns destes insistem em não levar em consideração suas próprias histórias e tradições ancestrais, os resquícios coloniais continuam bem vivos e agora mais do que nunca tentam trazer a história dos repressores e escravocratas em detrimento da historia dos reprimidos, humilhados e excluídos, tem aumentado substancialmente as "Yás Funfun ti ara dúdú" que têm melhor prestigio junto aos gestores que desconhecem geralmente o histórico do povo de Terreiro de Pernambuco e se iludem com as performances de vestuários e com um conjunto de línguas estranhas, nunca o Yorubá.

Nossos grandes Sacerdotes e Sacerdotisas continuam esquecidos em seus humildes Terreiros localizados nos Altos, Becos e Vielas de nossa cidade e de certa forma protegidos! Precisam de ações afirmativsa de infra estrutura e de saúde.

Agora quem comprar um Casarão antigo, Engenho, Palacete etc. e transformá-lo num Terreiro, terá o respaldo governamental? Pois as paredes, os assentamentos o chão e as consciências coletivas acumuladas de Axé ancestral perdem seu valor? Faz-se necessário identificar quais os templos que detém tais acúmulos, pois lá moram humanos que passaram longo período de exclusão social e política.
Como não sou sacerdote e nunca tive a menor pretensão de ser-lo, faço votos que a consciência das novas gerações sensibilizem-se na perspectiva de manter a dignidade ancestral, procurem ampliar seus conhecimentos sacerdotais sem perder de vista a memória, a tradição e principalmente sua história.

Como Omo Xangô com 26 anos de Religião e 6 anos de iniciado me sinto totalmente a vontade para fazer este registro.

João Monteiro
Omo Xangô Obá Aduban
Coordenação do Quilombo Cultural Malunguinho
Historiador, Especialista em Preservação de Patrimônio Documental

Kipupa Malunguinho em Exposição na Universidade de Brasília - UNB


Kipupa Malunguinho em Exposição na Universidade de Brasília - UNB

Lançamento do ciclo de projeções de documentários e de mostras fotográficas do Iris - Laboratório de Imagem e Registro de Interações Sociais (DAN/UnB).

Com as fotografias feitas no período de sua pesquisa acadêmica em Pernambuco, o mestre em antropologia pela UNB, Pedro Stoekcli Pires, mostra o V Kipupa Malunguinho e parte de sua história nesta exposição. O público terá a oportunidade de conhecer um dos movimentos mais importantes de resistência do povo da Jurema do Brasil, que acontece sempre todos os anos em setembro (mês de Malunguinho) no Catucá, matas do Engenho Utinga, Pitanga II, Abreu e Lima - Pernambuco. A fumaça está bem repersentada com as fotos de Pedro, de fato ele resistrou a face mais profunda de nossa tradição e religiosidade.

Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho.
alexandrelomilodo@gmail.com

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Saurê Abdias Nascimento!






Recebemos do Professor Dr. Félix Ayoh'OMIDIRE do Department of Foreign Languages, Faculty of Arts da Obafemi Awolowo University localizada em Ile-Ife, Osun-State, Nigéria, a Justa homenagem que fez ao grande baluarte de nossa luta, Abdias Nascimento, esta instituição outorgou a Abdias Nascimento o título de Doutor Honoris Causa em memorável cerimonia em 2007 e nesta ultima quarta dia 08 nos escreveu:

“Querida Elisa e toda a família afrodescendente,

Fiquei muito triste ao receber a notícia da transição do nosso querido baba Abdias deste aye para o orum. Porém, pensando melhor, me consolei com o fato de que, dentro da nossa cultura iorubana, uma pessoa do quilate do Abdias nunca sera capaz de morrer, senão subir na hierarquia. Abdias agora é orisa, pois soube superar com a sua luta ferrenha contra todos os tipos de discriminação e preconceito que vitimaram e ainda vitimam o negro não só no Brasil como também no resto do mundo.
Com efeito, o Abdias merece, hoje mais que nunca este status de ancestral, pois ele venceu todas as barreiras do tempo e do espaço na sua luta: saiu do Brasil para o mundo, levando consigo a sua luta e a sua convicção. Nos EUA mostrou aos americanos de origem africana uma dimensão mais rica de ser africano. Na Nigéria sitiou e denunciou o genocídio dos negros brasileiros, desmentindo séculos da arraigada "democracia racial". Acabou derrubando o mesmo, comemorando com o mundo inteiro a derrota inicial do racismo e todo tipo de discriminação e apartheid nas conferências de Durban em 2001, fato que prenunciou as vitórias da "Consciência Negra" no próprio Brasil, Abdias será lembrado para sempre no Brasil como o verdadeiro porta bandeira das marchas de Zumbi +, além de representar uma verdadeira parteira das políticas da Ação Afirmativa no Brasil que gerou no coração sensível do Governo Lula a criação da Seppir e a política das Cotas, dentre outras tantas vitórias que se seguiram à sanção da Lei Federal 10.639/03.

Como foi lembrado durante a intervenção do próprio Abdias como Conferencista Magna durante o IV Colóquio Global Africano organizado pelo CBAAC (órgão do Ministério da cultura da Nigéria) e apoiado pelo Ipeafro na Uerj em 2008, onde a voz do Abdias bradou durante mais de uma hora desde a sua cadeira de rodas para uma plateia composta de negr@s e africanistas dos quatro cantos do mundo, ele ABDIAS teve a sorte de ser um dos poucos heróis que tiveram a felicidade de ver e viver a realização dos frutos da sua luta, pois conseguiu viver a vitória das Ações Afirmativas que levou a sua vida inteira a planejar e executar ao lado do seu povo querido.

A nós, seus herdeiros ideológicos, étnicos e estéticos, só nos resta saudá-lo como se costuma saudar na cultura iorubana aos ancestrais que atravessam triunfalmente a húbris deste aye para ocupar seu lugar no orum:

Ká tó r'erin o d'igbo,
Ká tó r'éfòn, ó d'òdàn,
Ká tó r'éni bi Abdias Nascimento,
O d'orun Alakeji!
Ma j'òkùn,
Má j'ékòló o, Abdias,
Ohun ti wón ba nje l'ájùlé òrun ni koo bawo jè.

Bóo ba délé o kíle o,
Bóo d'óna o bèèrè wò.
Àtètèdélé ise mi l'àkójé o.
Òpòló ò, oníy`'aré o,
Èiye ire ìyèrú oò, èiyè!...

Saurê Abdias Nascimento!”


E a Doutora Elisa Larkin viúva do grande Abdias Nascimento em resposta ao Professor Dr Félix, também nos enviou a mensagem:
“Querido irmão Felix, que alegria receber sua mensagem!

Através de você eu quero saudar toda a comunidade da nossa querida Universidade Obafemi Awolowo que outorgou a Abdias o título de Doutor Honoris Causa em memorável cerimônia em 2007.

Segue o link para um pequeno vídeo do velório e do ato de sétimo dia realizado no sítio histórico do Cais do Valongo e na sede da Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria e pela Vida, no Rio de Janeiro, dias 26 e 31 de maio passados. Quando entrar o quadro da Rio TV Câmara, clicar na opção "Edições de 26/05 e 31/05/2011".

http://www.camara.rj.gov.br/riotv_verprog_camarariotv.php

Estamos nos preparando para cumprir o desejo de Abdias e levar seus restos mortais à Serra da Barriga, local da República de Palmares, em 13 de novembro próximo. A idéia encaminhada pelo movimento negro é de plantarmos um pé de baobá e um pé de iroko em sua homenagem.

Um grande abraço extensivo a todos os nossos amigos e irmãos na Nigéria!”
Nossos respeitos a Doutora Elisa que junto a nossa referência de luta Abdias Nascimento fomentou discussões e instigou pesquisas, trazendo a luz possibilidades reais de rever nossa historia ancestral!
Sentimos a perda, porém acreditamos de onde Abdias Nascimento estiver, fiscalizará melhor e instigará toda nossa luta.

Salve Zumbi! Salve Malunguinho! Salve Abdias!



João Monteiro


Historiador - Coordenação do Quilombo Cultural Malunguinho



sexta-feira, 22 de abril de 2011

Carta de apoio integral à Festa da Lavadeira - Quilombo Cultural Malunguinho.




Festa da Lavadeira, raiz que vem do mar!

O maior evento/festa de cultura popular, tradicional e de terreiro de nosso Estado é sem duvida a Festa da Lavadeira.

Nesta poderosa reunião de diversos segmentos da cultura brasileira surge o Axé do Orixá Iyemojá como o agregador de todas as cores, etnias, pensamentos, lutas, amores e transcendências. Percebe-se que o Axé deste Orixá quebra barreiras e reorganiza todo um povo que historicamente foi apartado e ceifado de sua cidadania plena e de seu direito de colocar-se no cenário cultural, como atrações e manifestações de valor estético plausível. Este recalque chama-se racismo histórico, intolerância e pré-conceito de uma sociedade embranquecida pelos fatos e planos históricos que conhecemos bem.


Mestre Galo Preto cantando para um público de mais de 10 mil pessoas. Foto de Mariana Lima.

Em Pernambuco a cultura popular e tradicional é mantida pelo povo negro e índio. Que com orgulho mantém viva a chama da originalidade única que só o Brasil possui. Portanto, podemos desde já perceber que as teorias gilberto-freyianas que instituíram a partir da academia em nós o pensamento de “democracia racial” nunca existiu e se vir a se tornar realidade, deverá se chamar “democracia étnico social”, visto que o conceito de raça perdeu sua legitimidade frente aos estudos culturalistas realizados pela academia.



A idéia de transformar um terreiro de candomblé em um ponto que emana agregação entre povos do mundo é o confronto com a antiga idéia de que no período do escravismo brasileiro era plano para destruir estes povos negros que, aqui em nossas terras, foram submetidos a um processo de separação familiar, étnica e cultural. A Festa faz o caminho inverso, agrega, chama pra junto, reafirma amizades, congrega os povos. Isso é muito forte e revolucionário, porque disso emana a esperança de uma nova era para o povo que tem no sangue e na pele o registro da riqueza ancestral da cultura. A Lavadeira é instrumento dos Orixás, Mestres, Mestras, Caboclos, Exús e Trunqueiros, no resgate do que no passado foi vilipendiado pelo sistema de dominação dos povos da Europa, e por isso merece respeito de toda sociedade, que ainda não reparou os danos históricos que a grande maioria deste país sofreu. A Lavadeira também é reparação!


Gira de Candomblé para Iyemojá dentro do Terreiro da Lavadeira. Foto de João Monteiro

Não percebemos a Festa como território do “sagrado” e do “profano”. Vai muito além disso. Nela, tem a própria transcendência da polissemia sagrado e não sagrado, profano e não profano. A Festa é o território da experiência da transcendência completa das linguagens, onde as pessoas vão para reverenciar a vida em sua totalidade, a vida que veio da água, a vida que está na natureza e em tudo, quase uma concepção deísta de mundo, coisa rara hoje no nosso universo, que ainda insiste em separar o sagrado do compreendido como não sagrado, na Festa, é mais...

Iyemonjá a grande homenageada reina absoluta como a grande iyá dúdú ti ara ayé (Mãe negra do povo da terra), que com seu Odú verdadeiro de Mãe abre os braços para mais de 20 mil pessoas de diversas tribos, diversos segmentos, diversos pensamentos, diversos gostos, abre os braços para a diversidade cultural enfim.


Público na Festa.Foto de João Monteiro

Como o Estado pernambucano e os empresários não enxergam isso? Por que acabar com essa Festa? Isso logo nos remete ao pensamento do período colonial, onde o negro e o índio não podiam tocar seu tambor, fazer seus rituais, viver em liberdade... Liberdade essa que com as atitudes tomadas no espaço o Paiva, onde acontece a Festa, se apresentam de forma assustadora, com uma suposta “privatização da praia”, dos espaços legalmente públicos, como atesta nossa constituição sobre o uso público das praias. públicos... Nossa, onde estamos, na colônia de novo?

Isso tudo é muito perigoso. Esta situação ressuscita os fantasmas do passado, do tempo que o poder dos ricos e da Igreja imperava sobre os “sem espírito” nas terras de “ninguém”. Absurdo em todos os âmbitos, não há argumentos que justifiquem o processo para destruir esse evento, a não ser o racismo, coisa que infelizmente compões nossa sociedade e que aflora todos os dias. Muitas vezes tal racismo toma proporções tão grandes que somente os olhos azuis podem enxergar com naturalidade, pois no passados de seus ancestrais isso tudo era natural, matar, acabar, destituir a liberdade, ceifar a alma sem pena...

Sabemos que nos discursos mais recentes, os gestores públicos alardeiam sobre a implementação de políticas públicas para Promoção da Igualdade Étnico “Racial”, portanto, onde estão os órgãos que eram pra intervir neste caso? Na verdade, não existem em Pernambuco de fato, pois sequer uma secretaria foi pensada no plano de governo atual. Isso também revela a face do nosso Estado.

Mas não se iludam, Iyemonjá Ogunté (àquela que possui Ògún) protege Eduardo Melo, o idealizador da Festa da Lavadeira. Ele sempre foi instrumento desta divindade. Esperamos e confiamos que a justiça se coloque contra o racismo, a exclusão, a arbitrariedade, e também contra a repetição da história dos poderosos que massacraram e massacram os “miseráveis”.

As raízes vêm do mar... 25 anos de tradição é a afirmação de que a cultura popular junta tem força, assim seguiremos.

Malunguinho está de ronda na Jurema, nas fronteiras com seus Estrepes!

Salve o povo e a cultura que é nossa. Fé e irmandade!



Olinda/Recife 22 de Abril de 2011




Alexandre L’Omi L’Odò

Pesquisador, Produtor Cultural, Músico, Sacerdote Iyawò e Juremeiro.




João Monteiro

Historiador, Especialista em Preservação de Patrimônio, Sacerdote Iyawò e Juremeiro.



QCM.

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Visitem o site da Lavadeira: www.festadalavadeira.blogspot.com




quarta-feira, 20 de abril de 2011

Semana Santa mais uma vez!

Nossa Senhora da Soledade. Representação imagética da tristeza pela perca de um filho.

Mesmo diante de tanta chuva, mais uma vez a semana vira “santa”, observa-se da mais simples e imperceptível a mais extravagante experiência de fé. Tem casa que se é proibido ligar o aparelho de som (mesmo baixo), pregar pregos na parede, usar roupas coloridas e falar em voz alta, o jejum de carne começou desde a quarta feira ingrata, principalmente as sextas-feiras, mais o ápice da semana começou com a procissão dos Ramos no domingo passado, a tradição já não resiste as inovações do século XXI, daí as ritualísticas recomeçam nesta quinta com a Missa dos santos óleos na Catedral da Sé em Olinda na qual os Sacerdotes renovam suas ligações místicas, religiosas e principalmente de Fé com a Igreja Católica, uma bela celebração, pela tarde tem a festejada celebração da instituição da Eucaristia é o ponto mais alto de todos os rituais da Igreja. Na noite de quinta pra sexta se remonta a prisão de Jesus e pela tarde de Sexta o grande mistério da Morte de Jesus é dramatizado pela Via Sacra, um momento de grande reflexão, as badaladas dos sinos dão lugar as pancadas da matraca até que no sábado por volta da meia noite, dentro da tradição, se tem a vigília Pascal outro grande momento, onde o fogo e a água se revelam na mística religiosa católica e enfim Domingo de Páscoa, celebração da Ressurreição.

Na verdade todo esse panorama vem sendo construído ao longo destes quase 2.000 anos, e mesmo com as deficiências arqueológicas, historiográficas e históricas em torno de Jesus, ele e sua Mãe Maria se tornaram referencial de fé, mesmo diante das experiências mais antagônicas possíveis, como é o caso das Religiões de Matriz Africana, Afro brasileira e Indígenas. Diante da marginalização estas Religiões Negras e Indígenas incorporaram em suas ritualísticas momentos de reverenciação à Semana Santa, O Candomblé ou Xangô pernambucano encerra, na sexta feira anterior, cobre-se todos os Igbás (assentamentos sagrados) dos Orixás com um pano branco e oferta comida seca e seca as quartinhas, no sábado de aleluia se enche as quartinhas novamente e pacientemente, em alguns Terreiros como a exemplo da Casa Xambá em Olinda, existe uma liturgia peculiar chamado “ritual das bolsas” realizada na semana anterior, um grande e poderoso ebó do Xambá e todos se resguardam do Orixá até no sábado de Aleluia, quando pela manhã é realizado um toque chamando os Orixás.

No caso da Jurema Sagrada, em muitas Casas o quarto dedicado a esse culto permanece fechado durante todo tempo “santo” e cobre-se os príncipes e as cidades da Jurema (taças e copos de vidro ou cristal) com “matapulão”, um tipo de filó e no domingo de Páscoa se dava um Toré para os Caboclos da Jurema.

Alguns rituais, heranças dos cultos pagãos europeus encontrão na sexta feira “santa” o momento especial para a realização de feitiços, na noite da quinta pra sexta é o dia certo para fazer encantarias.

Além de tudo os brincantes de Clube de Frevo, Blocos e troças carnavalescas viam no sábado de aleluia mais um momento para festejar, como no caso do Clube Carnavalesco Mixto Lavadeiras de Areias que até pouco tempo desfilava pelas ruas do bairro neste dia após “encontrar à Aleluia”.

Tudo isso é simbiose cultural, provocada pela repressão a estas Religiões brasileiras, portanto, seria uma prova de respeito ao cristianismo esses rituais dentro dos Terreiros? Ao contrário dos cristãos nunca tiveram respeito as religiões de Matriz Africana e Indígena, contudo a áurea mística da Semana “Santa” perde a cada ano seu tom religioso, histórico e cultural judaico-cristão, além de teológico pois hoje já temos centenas de Terreiros e Casas de Xangô que se aperceberam de sua identidade Histórica, Cultural e acima de tudo Teológica, chegaremos lá.

Informar e formar é preciso sempre e com qualidade!

João Monteiro – Omo Obá Aduban
Coordenação do QCM
Historiador, Especialista em Preservação de Acervos Gráficos

sábado, 2 de abril de 2011

"Os demônios que vem do Norte"!

A Declaração sobre eliminação de todas as formas de intolerância e discriminação com base em Religião ou Crença, proclamada pela resolução 36/55 da Assembléia Geral da ONU em 25 de novembro de 1981, " Considerou que um dos princípios básicos da Carta das Nações Unidas é o da dignidade e igualdade inerentes a todos os seres humanos e todos os Estados Membros se comprometeram, juntamente com a Organização, a tomar ações conjuntas e separadas de cooperação, no sentido de promover e estimular o respeito e o cumprimento universal aos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, idioma ou religião. Considerando que a Declaração Universal dos Direitos Humanos e os Convênios Internacionais e Direitos Humanos proclamam os princípios da não discriminação e da igualdade perante a lei, bem como o direito à liberdade de pensamento, consciência, religião e crença".

No entanto os Estados Unidos dão mais uma vez mal exemplo ao mundo, através do Pastor Terry Jones que queimou um exemplar do Alcorão, Livro Sagrado dos Mulçumanos, o infeliz assegura que não se sente responsável pelo reboliço que causou nos paises Islâmicos que já nutrem ódio pelos ocidentais, principalmente os cristãos, sejam católicos ou protestantes.

Esperamos que o Brasil saiba a tempo conter os ânimos dos pastores evangelicos que a cada dia se especializam em provocar ódio e ações desagregadoras em nossa sociedade.

Os seguidores das Religiões de Matriz africana, afro-brasileira e indigena vem sofrendo esses constrangimentos constantemente, seja pela tão esperada e prometida, implantação de politicas públicas pelo estado ou pela falta de articulação politica dos seguidores do camdomblé, Umbanda e Jurema ou ainda pelo despreparo teológico da maioria absoluta dos Pastores evangélicos que vivem a instigar preconceito e discriminação, ficando claro o "desrespeito e a violação dos direitos humanos e das liberdades fundamentais e particularmente, do direito à liberdade de pensamento, consciência e religião".

A noção de Unidade na Diversidade já trabalhada pelas Religiões Africanas e afro-braliseira em Recife no inicio da decada de 1980, poderia começar a ser refletida pela comunidade evangélica. A Biblia Sagrada não pode ser instrumento de fomento de òdio entre os povos, pois isso dimui a sacralidade deste livro.

Deus, Olodumaré ou Yahveh está de olho, ele é Obá adákédájó, o Rei que senta em silêncio e aplica a justiça!


João Monteiro - Omo Xangô Aduban, Juremeiro

Coordenação do Quilombo Cultural Malunguinho

Historiador, Especialista em Preservação de Acervos


Quilombo Cultural Malunguinho no encontro de Caboclinhos de Goiana - defesa da Jurema.


No dia 30 de Março de 2011, na cidade de Goiana - PE, foi realizado pela Associação Carnavalesca Dos Caboclinhos e Índios de Pernambuco o seminário PRIMEIRA ASSEMBLÉIA INDIGENA DE NOSSA HISTÓRIA, OCORRIDA EM GOIANA, EM 30 DE MARÇO DE 1645.

O evento foi muito inspirador, e eu e Sandro de Jucá, tivemos a oportunidade de nos colocarmos em relação ao que as agremiações carnavalescas de Caboclinhos e Índios poderiam fazer para fortalecer a Jurema Sagrada no nosso Estado. Como os caboclinhos são dentre outras manifestações do carnaval e cultura de Pernambuco, ligados diretamente com o culto da Jurema Sagrada, incitamos o levante desta consciência, e que a partir desta todas e todos pudessem se manifestar como juremeiros e juremeiras, colocando também a discussão religiosa dentre suas lutas. As propostas foram muito bem aceitas pela Associação e platéia, que ao final, articulamos futuras articulações entre a Associação e o Quilombo Cultural Malunguinho.

Vejam o vídeo com nossas falas.

Salve a Jurema Sagrada!

Alexandre L'Omi L'Odò - Coordenador Quilombo Cultural Malunguinho.

Xangô, inegável marca de nossa gente!

Foto de Aluísio Moreira

Xangô, inegável marca de nossa gente!

Os cultos de matrizes africanas em Pernambuco têm seu primeiro registro oficial de 10 de junho 1780, onde o Conde de Pavoline, governador da Província pede sugestões ao Rei de Portugal de como combater essas manifestações dos “Pretos da Costa”. Esta era uma das preocupações dos governantes, já que nosso estado era um dos grandes importadores de mão de obra e tecnologia negra, o que veio colaborar para que o Brasil tenha hoje um dos maiores contingentes de negros e negras do mundo (sendo Recife a terceira capital do país), ficando atrás da Nigéria, país que com sua cultura e tradição também deixou marcas profundas em nossa identidade social, cultural e religiosa, sobre tudo no culto Nagô, ou Nagô Egbá, chamado e conhecido também como “Xangô pernambucano”.

A religião Yorubana uma das mais antigas do mundo, tem sua cosmovisão centrada na dinâmica do àsè – a força vital, elemento responsável pela existência e toda sua dinâmica, regida e controlada por Esú, Òrìsà primogênito, criação do próprio Olórùn, o Deus supremo yorùbá.

Em Pernambuco, estas religiões africanas começaram a se organizar enquanto Terreiros provavelmente na segunda metade do século XIX, tendo em Sàngó uma divindade de grande devoção e prática litúrgica. Oba Ogodò (Rei Ogodò, àquele que quebra o pilão, um dos nomes de Sàngó em Pernambuco) foi um dos primeiros a serem cultuados. Foi trazido da Nigéria pelos antepassados de Vivina Rodrigues Braga – Iyá Iná (mãe/senhora do fogo), conhecida como Tia Sinhá, que nasceu em Recife em 17 de dezembro de 1874, com sua família veio também o culto aos antepassados que juntamente com Ignês Joaquina da Costa – Ifátinuké, fundadora do mais antigo Terreiro em funcionamento do Recife, o Ilé Iyemonjá Ògúnté, mais conhecido como Sítio de Pai Adão, na Estrada Velha de Água Fria, estabeleceram as bases do culto denominado “Xangô Pernambucano”, com contribuição de renomados sacerdotes como Rodolfo Martins de Andrade- Bángbósè Obitikó (Bamboxê- àquele que carrega/segura o machado duplo de Sàngó o Oxê), Martiniano Eliseu do Bonfim- Ojé L’adé (figurativamente: o [Ojé- sacerdote do culto Égúngún] coroado, ou da coroa real) entre outros.

Imbrincado com a identidade do conceito de justiça, Sàngó fortaleceu mais ainda o culto negro pernambucano, já que ele é o ancestral divinizado pelos seus méritos e conquistas a favor de seu povo. A vaidade, o poder, a força masculina, o princípio da organização político-social e belicosa, justiça e a voracidade amorosa/sexual, compõem algumas de suas principais características, somatizando em seus filhos também parte fundamental de sua personalidade. Seus elementos são o fogo, o trovão e o raio, suas cores votivas são o vermelho e o branco e sua comida ritual predileta é o àmàlà (quiabada com rabada, azeite de dendê e outros condimentos). Suas datas comemorativas são o dia 6 de Reis em janeiro e o período do São João, em junho, especialmente no dia 24 dedicado ao Santo católico.

Devido ao longo processo de discriminação, inculturação e repressão estabelecidos pelas religiões judaico-cristãs e apoiadas pelo Estado conservador racista, o sincretismo foi necessário à sobrevivência desta cultura ancestral. O culto à São João Batista já carregado de elementos pagãos impostos pelo catolicismo popular, como por exemplo a fogueira junina que veio a ser um álibi perfeito para a difusão do culto de Sàngó, que também “é” sincretizado com São João Batista além de São Jerônimo e São Pedro. Um desses importantes momentos é a tradicional procissão do Acorda Povo que acontece anualmente na madrugada do dia 23/06. Hoje no bairro de Areias (RPA 5.2) se mantém a mais de 70 anos, um dos mais antigos de Recife, criado por Adalgisa Marques de Almeida, filha de Sàngó, nascida em 1899, sacerdotisa assídua da Casa das Tias do Pátio do Terço e do Sitio de Pai Adão.

A construção de políticas públicas direcionadas as religiões de matrizes africanas e afro indígenas, vem respeitando a diferença dos povos, culturas, gêneros e buscando a equidade socioeconômica e uma maior inclusão social dos afros descendentes e indígenas, afim de reparar todos os danos causados com a criminalização e marginalização da cultura e do negro brasileiro.

E para entendermos o mundo a partir de referenciais próprios de nossa ancestralidade afrodescendente, temos em Sàngó o elemento apropriado para discutirmos e inspirarmo-nos em seus feitos mítico-históricos e todo seu axé de justiça pela libertação de nosso povo, liberdade esta que ainda é um bem por vir.

Os Yorùbás nos deixaram esse forte legado. Hoje, Ele é um patrimônio de Recife e do estado de Pernambuco. O Culto a Sàngó (Xangô) que empresta seu nome aos rituais gerais de Matriz Africana em nosso Estado é um forte reconhecimento a esta inegável marca da nossa gente.

Kíní ba, kíní ba, àrá won pè – (Poderoso Senhor que racha o pilão e oculta-se)
Kíní ba, o sérée alado àwúre – (Que impõe os raios e os chama de volta, abençoe-nos).

Kawó-Kabiyèsílé – (Venha ver o Rei descer sobre a terra) – Sua saudação em todos os terreiros do Brasil!

João Monteiro - Omo Sangó Aduban, Juremeiro
Historiador, especialista em Preservação de Acervos

Alexandre L'Omi L'Odò - Omo Osún e Juremeiro
Graduando em História, pesquisador, produtor e gestor cultural

quinta-feira, 31 de março de 2011

Boi da Discórdia


Boi da Discórdia

Mais uma vez as Religiões de Matriz Afro-brasileira são alvo de sua própria desarticulação política e teológica, fruto de Sacerdotes desagregadores e de legitimidade duvidosa, dentro das normas e preceitos religiosos tradicionais. Já é “comum” a sociedade tripudiar de nossa religiosidade, diante de Hordas de embusteiros existentes, não seria outro o resultado, e hoje se fortalecem e se locupletam do sonho evasivo do estado de “implantar” políticas públicas e de inclusão para “povo de Terreiro”.

É sabido que a “Religião é de longe a mais desagregadora entidade criada pelo homem” os fundamentos da Religião nagô passam distante dessa Confusão teológica enraizada em tantos Terreiros em Pernambuco, Exu entidade fundamental de nossa Religião representa a dinâmica primordial do Axé, a força mística que nos rege, individual e coletivamente. Que Olodumáre tome conta dos que blasfemam contra a sua primeira e mais importante criação, Exu.

João Monteiro - dundunmonteiro@yahoo.com.br
Omo Xangô e Historiador

domingo, 5 de setembro de 2010

2° Semana estadual da Vivência e Prática da Cultura Afro Pernambucana. Lei Malunguinho 13.298/07

O Quilombo Cultural Malunguinho Apresenta a:


2° Semana Estadual da Vivência e Prática da Cultura Afro Pernambucana.

Lei Malunguinho 13.298/07

De 12/09 à 01/10 de 2010.



Malunguinho Histórico e Divino 175 anos resistindo!


A 2° Semana Estadual da Vivência e Prática da Cultura Afro Pernambucana,

Lei Malunguinho 13.298/07 tem como objetivo consolidar o diálogo entre as diversas religiões de matrizes africanas e indígenas com a sociedade civil e a cultura de tradição, escolas e academias, com o intuito de celebrar a memória do líder negro e divindade do culto da Jurema Sagrada, Malunguinho, personagem da história do Brasil, assassinado no dia 18 de setembro de 1835, no município de Maricota, hoje Abreu e Lima.


Visamos também garantir a expressão da diversidade presente nas atividades, possibilitando a articulação entre pessoas e grupos, além da participação plural e intensa dos povos de terreiro nos processos de discussão política e social, cultural e teológica, garantindo a troca de saberes com a função de contribuir para o fim do racismo, da intolerância religiosa e da desmistificação de nossa história negra e indígena marginalizada (lei 11.645/08).


“Na mata tem um caboclo

Todo vestido de pena

Este caboclo é Malunguinho

Ele é rei lá da Jurema”!


A expressão de uma articulação do povo da Jurema Sagrada. IV Kipupa Malunguinho. Foto de João Monteiro. 2009


Programação Completa


Domingo 12/09

10h.

Reabertura do terreiro de Jurema Centro Espírita Mestre João (Mãezinha Juremeira 85 anos) - Toque para Malunguinho – Ritual religioso.

Local: Segunda Travessa do Buraco da Velha 52, Bairro Capibaribe – São Lourenço da Mata.


Segunda 13/09

Abertura oficial da semana de Malunguinho- Gira de Diálogos audiovisuais afro-indígenas.

Hora: 19 às 22h

Local: Teatro do Parque

Mostra de vídeos e discussão sobre a Jurema Sagrada e Malunguinho:


Malunguinho, O Guerreiro do Catucá, O Rei da Jurema UNICAP/QCM, 2008
  • A Ciência dos Encantados – UNICAP, 2007
  • I Kipupa Malunguinho, a fundação da tradição do Catucá. De Felipe Peres Calheiros
  • Malunguinho Histórico Divino – 2009

Quarta 15/09

8h e 30min.

Gira de Diálogos Itinerantes

Seminário para professores e diretores de escolas públicas do Estado.

Tema: “Intolerância Religiosa, Aqui Não – Por uma escola pública verdadeiramente laica”

Local: São Lourenço da Mata


Quinta 16/09

14h.

Gira de Diálogos Itinerantes

Seminário – Religiões de Matrizes Africanas e Indígenas e Meio Ambiente, Desafios do Século XXI.

Local: Clube Rerun Novariun (Tiúma) e Praça de Tiúma

São Lourenço da Mata

Atividades complementares:


- 16h 30min. Plantio de uma muda de Baobá na Praça de Tiúma;


- 17h. Apresentação do Grupo de Teatro de Fantoches Baobá com o espetáculo: “Baobá; Semente que veio da África”;


- 17h. 30min. Roda de Capoeira;


- 18h Show com o Maracatú Raízes de Pai Adão (Grande Vencedor do Carnaval 2010 do Recife em sua Categoria);


- 19h Roda de Coco – Show com o ícone da Cultura Popular de Pernambuco Mestre Galo Preto.


Domingo 19/09

V Kipupa Malunguinho, coco na mata do Catucá

07h (Saís dos ônibus dos municípios e terreiros)

Local: Matas sagradas do engenho Pitanga II Abreu e Lima


    • Praça do Carmo de Recife
    • Nascedouro de Peixinhos - Olinda
    • Maracatu Nação Raízes de Pai Adão – Água Fria
    • Alto Santa Isabel – Recife
    • Praça do Teatro – Limoeiro (saída às 5h)
    • Praça do Mercado Velho – Jaboatão dos Guararapes
    • Praça do Canhão – São Lourenço da Mata
    • Igreja de Santa Isabel – Paulista

Artistas convidados para o V Kipupa:


Mestre Galo Preto – www.myspace.com/mestregalopreto

Zé de Teté (Limoeiro) - www.musicadepernambuco.pe.gov.br/artista.php?idArtista=12

Grupo Bongar - www.myspace.com/grupobongar

Adiel Luna e Coco Camarás - www.myspace.com/adiellunaecococamara


Atenção; levar sua alimentação, seu cachimbo e ir com roupas tradicionais da Jurema.

*Contribuição para os ônibus: R$: 5.

Inscrições pelo email: quilombo.cultural.malunguinho@gmail.com

Fones: 55 81 8887-1496 / 9428-4898 / 3244-2336


Quinta 23/09

Coroação da Rainha do Maracatu Raízes de Pai Adão

19h.

Local: Frente à Igreja do Rosário dos Homens Pretos do Recife (com presença da Rainha maior das congadas de Minas Gerais).


De 27/09 à 01/10

Curso de Língua Yorùbá – Com o Professor Mestre e sacerdote Jayro de Jesus

19h.

Local: São Lourenço da Mata


Produção e Coordenação

Alexandre L’Omi L’Odò – alexandrelomilodo@gmail.com / 55 81 8887-1496

João Monteiro – dundunmonterio@yahoo.com.br / 55 81 9428-4898

Anne Cleide - annepenaforte@yahoo.com.br / 55 81 8632-7596


Site na internet com todas as informações: www.qcmalunguinho.blogspot.com


Veja na Internet:

http://alexandrelomilodo.blogspot.com/2008/11/iii-kipupa-malunguinho-coco-na-mata-do.html


http://alexandrelomilodo.blogspot.com/2009/09/iv-kipupa-malunguinho-coco-na-mata-do_7585.html


Visite: www.alexandrelomilodo.blogspot.com



Alexandre L'Omi L'Odò
Produção e Coordenação Geral
81. 8887-1496