quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Juremologia para todas e todos - disponibilizada para baixar a dissertação de mestrado do juremeiro Alexandre L'Omi L'Odò

Alexandre L'Omi L'Odò demonstra o documento de aprovação no mestrado em ciências da religião na UNICAP, após sua defesa pública da dissertação Juremologia: uma busca etnográfica para sistematização de princípios da cosmovisão da Jurema Sagrada. Foto de Joannah Flor.


Juremologia para todas e todos
Disponibilizada para baixar a dissertação de mestrado do juremeiro Alexandre L'Omi L'Odò

Disponibilizo com muito amor e afeto o texto final e definitivo de minha dissertação de mestrado para todas e todos. Se interessados ou interessadas, é só baixar o arquivo em PDF no link, ao final deste texto.

Como conclusão derradeira, fechando meu ciclo de mestre na academia, no curso de Ciências da Religião da UNICAP, entrego à sociedade, o texto que me custou alguns anos de luta e muita dedicação para ser finalizado (ou quase finalizado, já que uma pesquisa deste vulto não se termina). Essa é uma prestação de contas, onde, por ter sido bolsista da CAPES (no governo de Dilma - PT), pude estudar e transcender meu universo de “menino da favela”, e virar intelectual nos termos da norma oficial da academia. Para mim já não é mais suficiente apenas ser um intelectual orgânico, como define Gramsci, em seus históricos escritos. Quero ser um catimbozeiro doutor, e assim continuarei essa luta até ser doutor de fato e de direito, pois se tem alguém que pode falar por nós, esse alguém somos nós, e não abro mão de conquistar esse direito com total dignidade e luta!

Ser intelectual e juremeiro é uma novidade em nossa sociedade. Mesmo com mais de 5017 anos de colonização, fui o primeiro juremeiro a defender um estudo na academia, que em 4 capítulos, sistematizou tudo de relevante que foi escrito e estudado sobre a Jurema, em um recorte histórico de 277 anos (1741 a 2017). Para além da profundidade historiográfica do texto, temos uma etnografia densa (GEERTZ), que trouxe a fala qualificada de diversos juremeiros e juremeiras de renome em Recife e Região Metropolitana, revelando para o mundo letrado uma cosmovisão ampla do que seria essa religião para as pessoas que a vivenciam, defendem e praticam com veemente fé e resistência.

Longe de ser uma cartinha de quase 300 páginas, de não academicidade, ou de movimento social (risco eminente que não me atingiu), meu texto foi elogiado pela banca examinadora com excelência, e pude com orgulho, responder com suficiência todas as argüições feitas no momento da qualificação e da defesa pública. Portanto, após tantas etapas complicadas e complexas, hoje posso me dizer satisfeito com o que escrevi, mesmo sabendo que poderia escrever mais... Aliás, continuo escrevendo mais, e lançarei em breve dois livros, que são resultado desta pesquisa.

Ter lançado o inédito termo JUREMOLOGIA no campo da pesquisa acadêmica, foi outra ousadia intelectual minha. Fundamentar este neologismo, e, defendê-lo, também me custou muito exercício de pesquisa e escrita. Contudo, aí está, firme e forte, pronto para ser usado por quem desejar. Também, devem questioná-lo, afinal, no campo acadêmico, tudo pode ser ampliado ou questionado, coisas que me dão muito entusiasmo e prazer, pois sou sim um homem que gosta de lutar a partir do campo intelectual (também). Usem, ampliem a pesquisa, adentrem este universo, pois, tudo que fiz, foi no intuito de contribuir para que mais e mais pessoas de terreiro possam acreditar que é possível sim, se formar e ocupar esse lugar privilegiado, que pertence à apenas 5% da população brasileira.

Essa dissertação, nasceu de meu sonho de mudar meu próprio mundo. O mundo da exclusão e da não sapiência daquilo que eu praticava. Da mesma forma que estudei autonomamente a língua yorùbá, e hoje dou aulas e traduzo toadas, me dediquei aos estudos da Jurema para compreendê-la mais e poder contribuir em seu avanço na sociedade como religião, sempre em uma perspectiva decolonial. Esses meus estudos tem mais de 15 anos, onde durante este tempo, pude colecionar textos e documentos importantes que me viabilizaram dar concretude a esta pesquisa.

Ser um sacerdote e intelectual é possível sim. Uma coisa não modifica a outra, e juntas, se fortalecem. Sou amante da tradição e profundo defensor da oralidade. Porém, sem ocuparmos a política e os espaços da intelectualidade, não estaremos fazendo grande coisa para o avanço de nosso povo. Temos que acordar o quanto antes! Ocidentalizar-se para desocidentalizar, é uma perspectiva de luta epistemologicamente pensada por mim e por tantos outros e outras para nos libertar das algemas do assombroso passado da escravidão e do holocausto indígena e suas heranças racistas. A Jurema que acredito, é a Jurema que quer se libertar das amarras do colonizador branco e cristão. Mesmo respeitando as tradições e tendo afeto por elas, como cientista e como sacerdote, me proponho, a estar na linha de frente da batalha, para podermos dar largos passos na conquista dos espaços desta sociedade, que também são nossos.

Não adianta apenas usar as redes sociais para promover informação sobre a Jurema, que é essencialmente uma religião de tradição oral. Temos que fazer coisas efetivas e amplas. É possível sim, firmar realizações efetivas como este texto/pesquisa e unir as ações virtuais (imateriais) com as ações práticas e concretas em outros campos. Este pode ser um caminho fértil para nos ajudar a avançar mais e mais, com força e inteireza.  Assim, poderemos olhar para trás e nos orgulharmos de tudo que nos dedicamos, pois palavras voam no ar, o que se registra, nem o vento branco do colonizador leva (parafraseando Mãe Stella de Oxóssi, uma das entrevistadas na dissertação).

Bom, espero que quem ler, possa me devolver uma crítica, uma fala, um comentário, uma ou várias discordâncias, etc. Preciso dialogar mais e mais com meus irmãos e irmãs por que essa pesquisa continua e se amplia...

Chega mais e COMPARTILHA, para que mais pessoas possam ter acesso. Muita gente me solicitou, agora ta aí, prontinha e toda disponível para ser degustada. J

Agradeço a todas e todos que me ajudaram a vencer cada etapa desta luta. Não foi fácil, mas ao final, o gosto e o empoderamento, da realização e da vitória, pagaram tudo.

A benção aos meus mentores: Reis Malunguinho, Major do Dia, Sr. Manso, Mestra Paulina, Caboclo Arranca Toco, Zé Pilintra, etc. Vocês são minha família indissolúvel. A benção Dona Leide de Sibamba, minha madrinha de Jurema. Adupé Oxum, iyá mi! Adupé Bàbá mi Ifátòògùn Paulo Braz Felipe da Costa, meu santo babalorixá e obrigado à minha digníssima iyalorixá Mãe Lu Omitogun, rainha oceânica de minha vida na religião nagô/jeje.

Tenho muito a quem agradecer, e com certeza nas páginas da dissertação estão os nomes de todas e todos que de um forma ou de outra contribuíram para que este texto existisse, disponível e livre para quem desejar se aprofundar na ciência mestra da jurema e sua história. “Tudo isso, é apenas uma gota no oceano”!

Sobô Nirê Mafá!
Trunfa Riá!
Saramunanga Cipopá!
A Jurema Merece Respeito!

Esta dissertação foi feita para “desfazer as coisas dos brancos” (Davi Kopenawa)!

Baixe a dissertação de mestrado Juremologia: uma busca etnográfica para sistematização de princípios da cosmovisão da Jurema Sagrada, no link abaixo:


Alexandre L’Omi L’Odò
Juremeiro, Historiador e Cientista das Religiões
Quilombo Cultural Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

sábado, 13 de janeiro de 2018

Casa das Matas do Reis Malunguinho foi fundada em Olinda

Alexandre L'Omi L'Odò, sacerdote juremeiro, regendo a primeira gira da Casa das Matas do Reis Malunguinho. Foto de Joanah Flor.

Casa das Matas do Reis Malunguinho foi fundada em Olinda

Enfim, fundamos nosso Terreiro de Jurema!

Enfim, a Casa das Matas do Reis Malunguinho foi aberta ao público. Este terreiro já existia em sua essência e força há muitos anos... Em minha casa em Peixinhos, onde já atendia muita gente com a ciência mestra da Jurema e com as cartas ciganas que “trabalho” desde os meus 7 anos de idade.

No último dia 06 de Janeiro de 2018, que no calendário cristão é dia de Reis, ou dia dos Três Reis Magos – Belchior, Baltasar e Gaspar, o nosso terreiro, celebrou o dia da abertura religiosa do calendário anula do Povo da Jurema e a fundação da Casa em novo endereço. Distante de realizar qualquer culto aos Reis Magos, a casa celebrou o Reis Malunguinho, divindade que é responsável pela chave que abre e fecha os portões sagrados das cidades da Jurema e que também defende todas as porteiras dos terreiros que praticam essa religião de matriz indígena do Nordeste do Brasil. Também, essa divindade, foi em vida, ou foram em vida (já que existiram vários os Malunguinhos), um (uns) herói negro/indígena na luta pela liberdade do povo negro no Quilombo do Catucá, na primeira metade do Século XIX.

Esse Preto, espírito de luz, forte e protetor, teve em sua homenagem, uma linda celebração que contou com participação de meus afilhados e afilhadas, amigos, parentes, artistas da cultura negra etc. que foram em nossa casa para vivenciar este momento único na minha história sacerdotal e na luta pelo fortalecimento de nossa religião.

Estou muito grato pela glória de fundar uma casa (seu último endereço ainda será na Mata Sagrada do Catucá, em Abreu e Lima [no futuro]), no Sítio Histórico de Olinda. Agora somos três templos de culto à ancestralidade negra e indígena no espaço das elites de Pernambuco. O histórico terreiro Palácio de Iemanjá, a tradicional e resiliente Casa do Caboclo Jupirací de Dona Maria José na Rua da Palha, e agora a Casa das Matas do Reis Malunguinho, formam um conjunto representativo da fé de nosso povo dentro do círculo patrimonial de Olinda. Este detalhe é importante!

Agradeço a todos e todas, meus afilhados e afilhadas, que com profunda dedicação e amor, fé e cumplicidade, me ajudaram a dar conta de tantos afazeres para preparar a simples festa que demos ao público.

Cada momento das obrigações, da entrega das oferendas, da feitura das comidas, da preparação da decoração da casa, da luta para servir da melhor forma os convidados e convidadas, etc. tudo foi de muita luz, paz, equilíbrio e alegria. Esse é o objetivo de nosso terreiro, acolher, dar paz e trazer boas energias a partir da fumaça sagrada das entidades e divindades, para confortar quem precisar e quem nos procurar.

Tenho que fazer aqui um agradecimento especial ao próprio Reis Malunguinho, patrono da casa, que com muita atenção, tem nos aberto os caminhos e nos trazido todos os recados positivos que precisamos e merecemos. Esse velho, que por horas é grosso, exigente, temperamental, é de um amor imenso pela missão que ele mantém na Terra, a da libertação de seu povo...

Eu, como discípulo da Jurema, um jovem juremeiro (mas dedicado e perseverante), entreguei há muitos anos minha vida a espiritualidade negra e indígena. Manterei-me atento a força branca do Racismo. Eles não passarão! Nossa casa é uma casa para se empretecer e se indigenecer. Um local para cura, para a busca do equilíbrio espiritual, para a preservação das tradições, para a troca de saberes, cursos, maracatu, coco, forró, bacamarte, para receber pessoas de todo país que queriam pesquisar e conversar, e, para a busca de boas energias que nos ajudem a enraizarmo-nos em nossa ancestralidade.

A Casa está aberta. Venham me visitar. Consultas também podem ser feitas... Chega junto. A casa é nossa!

Em breve divulgaremos nosso calendário anual de reuniões e de festas. Aguardem. Também, divulgaremos o calendário dos cursos de língua, história e cultura yorùbá e kimbundo, aluas de percussão, aulas de juremologia e de orientação de pesquisas no campo afro indígena. Ainda, convidamos todas e todos para participar dos ensaios do Maracatu Nação do Reis Malunguinho, que após o carnaval irá iniciar seus ensaios.

Sobô Nirê Mafá!
Trunfa Riá!
Saramunanga Cipopá!
A Jurema Merece Respeito!

Casa das Matas do Reis Malunguinho
Endereço: Rua São João, n° 340. Largo do Amparo. Sítio Histórico de Olinda – PE. | Fone: 81 99525-7119 | 81 98887-1496

Foto de Joanah Flor (como não poderia ser diferente).
Mais imagens na próxima postagem com todas as fotos de Joanah e Céu Mendonça.

Alexandre L’Omi L’Odò
Sacerdote Juremeiro da Casa das Matas do Reis Malunguinho
alexandrelomilodo@gmail.com

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

A Jurema Sagrada foi retratada e ganhou a França

Alexandre L'Omi L'Odò, sacerdote juremeiro que presidiu os rituais de consagração de Jurema nas matas sagradas do Reis Malunguinho, em Setembro de 2017. Foto de Diego Herculano. 

A Jurema Sagrada foi retratada e ganhou a França

Em Setembro de 2017, às vésperas da XII edição do Kipupa Malunguinho, recebi o convite de um fotógrafo e repórter chamado Diego Herculano, para fazer uma matéria sobre a Jurema Sagrada. Neste momento, estava próxima da data da realização da consagração na Jurema Sagrada de um de meus afilhados, morador do Sertão de Pernambuco. Permiti que o jornalista nos acompanhasse em parte dos afazeres rituais, e, ele fez lindos registros deste momento iluminado no caminho sacerdotal de um juremeiro ou juremeira. As imagens não registraram os fundamentos nem os segredos da religião.

Vejam abaixo o texto produzido para o site francês e sua tradução. Contribuí na confecção dos escritos e espero que tenha servido para o fortalecimento de nossa religião perante esse mundo ocidental e branco. Aproveitem, as fotos estão especiais. Diego também fez outros registros em terreiros de Recife, visitem o link disposto nesta publicação e confiram todas as imagens.

JUREMA SAGRADA, UN RITUEL DE MAGIE

Jurema Sacré est une tradition religieuse qui, selon les chercheurs, est pratiqué par les Indiens qui ont habité le nord-est du Brésil avant l'arrivée des colons portugais.

Jurema est un arbre de l'espèce Acacia qui est naturel du nord-est du Brésil. Le culte religieux se développe à partir d'une boisson faite avec la graine et l'écorce de l'arbre, qui produit un effet mettant le praticien en état de transe.

La religion de Jurema est bien connu dans nord-est du Brésil, depuis des siècles cette religion indigène a subi une grande influence de candomblé "terreiros" et la culture africaine légué par les esclaves au Brésil. De nos jours, les pratiquants de Candomblé pratiquent des rituels pour le Jurema sacré.

Pendant les rituels, les esprits rebelles, tels que les meurtriers, les ivrognes, les mendiants, sont reçus dans le corps des religieux et les gens peuvent demander des conseils, en retour, ils peuvent danser pour boire et fumer, ce qu'ils manquent et sans corps physique qu'ils ne peuvent pas faire.Dans les rituels, il est courant de passer des offrandes de fruits au sacrifice d'animaux.

Les apprentis de la Jurema Sacré ont comme pensée fondamentale de la foi que la nature est la plus grande expression du divin et considère les sacrifices comme quelque chose de naturel.

Postagem original está no link : http://hanslucas.com/dherculano/photo/12863

Caboclo firmado no ponto mestre. Sacerdote Alexandre L'Omi L'Odò entoando cânticos sagrados da Jurema na consagração de um afilhado. Foto de Diego Herculano. 

Tradução

Jurema Sagrada – Um ritual de magia

A Jurema Sagrada é uma tradição religiosa que, de acordo com pesquisadores, fora praticada por índios que viviam no nordeste brasileiro antes da chegada dos colonizadores portugueses.

Jurema é uma árvore da espécie Acácia nativa do Nordeste do Brasil. O culto religioso se desenvolve a partir de uma bebida feita com as entrecascas de suas raízes, que produz um efeito colocando o discípulo em estado de transe.

A religião da Jurema é bem conhecida no norte e nordeste do Brasil. Durante séculos, essa religião de matriz indígena tem sido influenciada por Terreiros de Candomblé e a cultura africana trazida com escravizados para o Brasil. Atualmente muitos dos praticantes de Candomblé praticam rituais da Jurema Sagrada.

Durante os rituais, os espíritos considerados sábios e antigos, especialmente dos escravizados que desenvolveram ciência e sabedoria, são recebidos no corpo dos religiosos e as pessoas podem pedir conselhos, em troca, podem dançar, beber e fumar, coisas para as quais eles não necessitam de um corpo físico.

Nos rituais, é comum a realização de oferendas de frutas a imolações de animais. Os praticantes da Jurema Sagrada têm como pensamento básico da fé que a natureza é a maior expressão do divino e consideram as imolações como naturais.

Fotos de Diego Herculano:

















Site oficial do repórter e fotógrafo:


Site onde está hospedada a matéria sobre a Jurema Sagrada:


Currículo de Diego Herculano no site Hans Lucas:



 Alexandre L'Omi L'Odò
Quilombo Cultural Malunguinho 
alexandrelomilodo@gmail.com

domingo, 24 de dezembro de 2017

“Faltou para muita gente”. Texto de reflexão sobre seu lugar de fala em relação aos temas afro indígenas

Alexandre L'Omi L'Odò fumando um cachimbo na Jurema, no X Kipupa Malunguinho. Foto de Carol Melo. Edição de L'Omi.

“Faltou para muita gente”. Texto de reflexão sobre seu lugar de fala em relação aos temas afro indígenas


Para compreender o que é liberdade negro indígena, faltou para muita gente, muita coisa. Portanto, decidi escrever este breve texto que aponta um pouco do que faltou para muita gente que quer assumir uma discussão e um lugar que não é seu, no campo da luta negra e indígena e do Povo de Terreiro.

Vejo pessoas apoiando o sincretismo religioso como um fato imutável. Vejo pessoas assumindo falas que jamais poderiam ter sido suas. Acompanho desenvolvimentos de teorias próprias e vazias que contribuem para o fortalecimento do racismo. Temos que conseguir debater melhor esses temas. Temos que nos posicionar e conversar sobre. Calar é o pior caminho. Na luta pelo Povo da Jurema, aprendi muito a ouvir e vivenciar a profundidade dos significados. Por isso, falo abaixo do que faltou para muita gente, na hora de uma fala sobre temas que envolvem nossas lutas, cultura, religiões e povos.

Faltou para muita gente:

Faltou para muita gente acordar ao som de tiros.

Faltou para muita gente ver o sol nascer em uma favela.

Faltou para muita gente ter lutado em Peixinhos.

Faltou para muita gente a possibilidade de ter trabalhado do GCASC – Grupo Comunidade Assumindo Suas Crianças.

Faltou para muita gente ter capinado e limpado o Nascedouro de Peixinhos.

Faltou para muita gente ter ouvido Rivaldo Pessoa falar sobre cultura negra.

Faltou para muita gente ter vivenciado os dias áureos do Alafin Oyó.

Faltou para muita gente ter ido à Colônia Z4 dançar o afoxé.

Faltou para muita gente debater com brancos e ser subestimado, mesmo estando certo, só por que você é pobre e de terreiro.

Faltou para muita gente ter ido ver o Maracatu Leão Coroado ensaiar em Águas Compridas.

Faltou para muita gente ter conhecido Dona Zuleide de Paula e ter conversado horas com ela sobre luta comunitária e história de base.

Faltou para muita gente ter vivenciado as atividades da Biblioteca Multicultural do Nascedouro de Peixinhos.

Faltou para muita gente ter podido ser do Boca do Lixo.

Faltou para muita gente ter ouvido o Ataque Suicida no palco.

Faltou para muita gente ter tido aulas de percussão com o genial mestre Toca Ogan.

Faltou para muita gente ter conhecido Sr. Matias, e seus filhos Marcos Matias e André Malê, mestres extraordinários.

Faltou para muita gente ter tocado no Bloco Mulambo.

Faltou para muita gente ter visitado terreiros paupérrimos nos morros e becos do Recife e Região Metropolitana.

Faltou para muita gente ter dado Cosme Damião e feito quebras panelas nas ruas dos bairros.

Faltou para muita gente ter passado um mês de quarto em recolhimento religioso para o Orixá.

Faltou para muita gente ter lutado pelas cotas raciais nas universidades.

Faltou para muita gente ter conversado com Massapê e visto suas músicas e poesias.

Faltou para muita gente ter saído de Peixinhos andando até Vila Popular para visitar o terreiro de Pai Raminho de Oxóssi.

Faltou para muita gente ter tocado ou dançado do Afoxé Ará Odé.

Faltou para muita gente ter ido às ruas lutar pela democracia.

Faltou para muita gente ter podido ouvir com atenção o Bloco Afro Lamento Negro.

Faltou para muita gente ter tocado ou dançado no Magê Molê.

Faltou para muita gente ter podido protestar contra o genocídio da juventude de Peixinhos em décadas passadas.

Faltou para muita gente ter ouvido Olodum com atenção.

Faltou para muita gente ter visto o Timbalada e sentido sua mensagem negra com profundidade.

Faltou para muita gente ter dançado dentro do Ilê Iyê e ter ouvido seus antigos LP's.

Faltou para muita gente ter podido participar de uma aula com Lepê Corrêa e ouvido seus ensinamentos.

Faltou para muita gente ter podido conhecer Sr. Luiz de França.

Faltou para muita gente ter conhecido o Mestre Dió (Deodato), gigantesco juremeiro.

Faltou para muita gente ter comido pirão de café, por falta de feijão.

Faltou para muita gente ter contribuído nos trabalhos em prol aos meninos e meninas de rua no Recife, a partir do CPP.

Faltou pra muita gente ter conhecido Demétrius e seus sonhos e coragem de transformar a realidade dos desvalidos.

Faltou para muita gente ter ouvido Chico Science com maior sensibilidade.

Faltou para muita gente ter conhecido o Sr. Amaro Fala Fina.

Faltou para muita gente ter conhecido João Meira de Peixinhos.

Faltou para muita gente ter visto o Balé Afro Akindelê e o Expressão Afro Brasil, ambos comunitários e feito por pessoas muito pobres.

Faltou para muita gente ter visto o Omo Lasó Àiyé nos palcos.

Faltou para muita gente ter visto Dito de Oxossi falando sobre povo negro.

Faltou para muita gente ter ouvido Cacique Chicão.

Faltou para muita gente ter lido os livros de Fanon e de Abdias Nascimento.

Faltou para muita gente ter conhecido a obra de Mestre Didi e ter-lhe pedido a benção.

Faltou para muita gente ter olhado com mais respeito para Carlinhos Brown.

Faltou para muita gente ter rasgado a bíblia de dentro de si.

Faltou para muita gente ter conhecido o insubstituível mestre negro Babá Paulo Braz Ifátòògùn.

Faltou para muita gente ter rezado com Mãe Lu Omitòògùn o mês mariano.

Faltou para muita gente ter visto o Mestre Sibamba incorporado na matéria da grande juremeira Dona Leide.

Faltou para muita gente ter conhecido Rolando Toro.

Faltou para muita gente ter lido os discursos de Osho.

Faltou para muita gente ter conhecido a Banda Etnia.

Faltou para muita gente ter gargalhado ao som de Dona Selma do Coco.

Faltou para muita gente ter sambado junto à Mestre Salustiano e visto suas aulas de Rabeca.
Faltou para muita gente ter estudado a língua Yorùbá.

Faltou para muita gente ter conhecido Oxum.

Faltou para muita gente o conhecimento sobre a luta de Malunguinho e do Quilombo do Catucá.

Faltou para muita gente ter acreditado que seria possível estudar e romper o status da pobreza a partir dos estudos.

Faltou para muita gente ter votado em Lula.

Faltou para muita gente ter lutado de fato contra o Golpe.

Faltou para muita gente ter ouvido e lido Lecí Brandão e Mertinho da Vila.

Faltou para muita gente ter lido umas poesias de Solano Trindade.

Faltou para muita gente ter vivenciado um verdadeiro Movimento Negro.

Faltou para muita gente ter fumado um cachimbo com os parentes indígenas.

Faltou para muita gente ter conhecido as poesias de Oriosvaldo de Almeida.

Faltou para muita gente parar para refletir sobre o sincretismo.

Faltou para muita gente ter tido coragem de romper com as correntes que nos escravizam no capitalismo.

Faltou para muita gente coragem de superar.

Faltou para muita gente sensibilidade.

Faltou para muita gente ter conhecido Mãe Ivanize de Xangô.

Faltou para muita gente ter parado para ouvir os saberes negros do Mestre Afonso do Maracatu.

Faltou para muita gente ter presenciado a incansável fé de Gilson Gomes na dança negra.
Faltou para muita gente vivenciar a mata sagrada de Malunguinho.

Faltou para muita descalçar os pés no Kipupa e receber a fumaça divina da Jurema.

Faltou para muita gente conhecer Paulo Queiroz e sua superação social através da dança.

Faltou para muita gente ter ouvido Chico Buarque de Holanda e refletir a partir de suas críticas musicais.

Faltou para muita gente ter participado das atividades do Axé Opô Afonjá, nos bons tempos.

Faltou para muita gente ter vivenciado as edições de ouro do Alaiandê Xirê.

Faltou para muita gente o convívio negro com Rita Honotório.

Faltou para muita gente ter conhecido a teologia da libertação.

Faltou para muita gente ter sentado aos pés do Iroko do Sítio de Pai Adão.

Faltou para muita gente ter ouvido Dona Mãezinha falando e cantando.

Faltou para muita gente ter visto Paulo Braz Ifátòògún dançando... Esse sim era inesquecível.

Faltou para muita gente ter prestado atenção no pensamento de Davi Kopenawa.

Faltou para muita gente ouvir os velhos incansavelmente.

Faltou para muita gente ter participado das edições do Congresso Nacional do Desfazendo Gênero.

Faltou para muita gente ter passado horas e horas limpando penas de galinha de uma cerimônia para os Orixás.

Faltou para muita gente ter visto o milagre de Ògúnté Mi, que materializou um peixe-boi no mar, em decorrência a entrega da Panela de Iyemojá.

Faltou para muita gente ver Ògúnté em terra dançando... Isso é Deus/Deusa puro.

Faltou para muita gente ter ouvido José Jorge de Carvalho e suas geniais lucubrações.

Faltou para muita gente ter amado pessoas loucas.

Faltou para muita gente ter se entregado à tudo que pode nos edificar em prol da luta contra o racismo.

Faltou para muita gente muita coisa negra e indígena.

Faltou para muita gente reconhecer que é branco ou branca e que seu lugar de poder é um desafeto para o povo que luta.

Faltou para mim tanta coisa, ainda assim...

Portanto, antes de falar, ou contestar o debate decolonial, antes de querer construir um discurso conformista sobre o sincretismo e a relação do cristianismo com o povo de terreiro, veja de onde, e em que condições você está falando. Mesmo sendo democrático o direito de opinar sobre qualquer coisa, creio ser necessário uma reflexo sobre seu lugar de fala. Calar por vezes é necessário. Abra-se para a desconstrução. Tem muita gente sábia que há anos luta para tentar realizar um processo de libertação ideológica ampla para o povo negro e indígena. Se junte a nós, venha caminhar conosco, venha ser parte de um mundo do bem viver e da harmonia social. Venha carregar um bombo nas costas e tocar um maracatu sem reclamar que está doendo os calos causados pelas baquetas na mão.

Salve a fumaça e que não falte para ninguém o direito da luta anti racismo.

Sobô Nirê Mafá!!
“Malunguinho no mundo, é meu braço direito”.

Alexandre L’Omi L’Odò
Quilombo Cultual Malunguinho

alexandrelomilodo@gmail.com