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quinta-feira, 17 de maio de 2012

S.O.S Mestra Jardecilha - Allandra/PB

A Jurema Sagrada ainda não consta no livro de registro de patrimônio imaterial do Brasil? São mais de 500 anos de historia, sendo a Jurema de Matriz indígena e tendo incorporado valores africanos e cristãos ao longo desse período, as politicas governamentais, ainda não programaram politicas afirmativas e inclusivas para proteção da Jurema em todo nordeste, a exemplo do suposto tombamento do Acaes feito pelo Instituto do Patrimônio histórico e Artístico do Estado da Paraíba – IPHAEP em novembro de 2010, onde um simples comunicado para os supostos atuais proprietários do Acaes, até o momento não foi feito por não identificarem o atual proprietário, a atual politica de patrimônio cultural imaterial do Brasil esta foi pautada a partir das cartas patrimoniais elaboradas pela UNESCO depois de inúmeras discursões em vários países do mundo. Na Paraíba a efetivação dessas politicas ficam mais complicada quando o estados perde sua laicidade e dar espaço a intolerância e a falta de respeito a diversidade religiosa.

Atualmente um dos últimos exemplares de Templo tradicional de Jurema esta sendo vítima de intolerância de seguimentos neopentecostais e descaso das instituições governamentais, sabemos que nosso povo sempre foi vítima de discriminações e que o estado sempre foi conivente, porém estamos vivendo novos paradigmas que vislumbram uma reparação histórica aos povos de Terreiros, temos outro grande problema a enfrentar, a falta de articulação e organização e ausência de uma discursão politico teológica  que nos deixa mais reféns e vulneráveis aos ataques de organizações judaico-cristãs.

Conforme informações a me repassadas por João Paulino, neto legitimo da Mestra Jardecilha também conhecida por Zefa de Tiíno, como registrou o Professor Ms Sandro Guimarães em sua obra, À Sombra da Jurema Encantada;
Nascida no município de Alhandra – PB, no dia 11 de junho de 1934, aos cinco anos de idade começou o contato com entidades da jurema aos nove anos já tinha o controle do sua mediunidade, e começou a consultar sozinha, afilhada da Mestra Maria do Acais, que no seu batizado, no mesmo ano de seu nascimento, afirmou que ela seria uma grande Mestra de Alhandra, só que não estaria viva para presenciar o fato. Maria do Acaes viera há falecer três anos depois. Seu pai João Pedro era cabeça de mesa de Maria do Acais, entendendo assim a proximidade da escolha da comadre.

Cabeça de mesa é aquele Mestre ou Mestra que auxilia e coordena as ritualísticas de Jurema de Mesa e sempre é uma pessoa de extrema confiança da Mestra dirigente.

Mestra Jardecilha começou a consultar na casa de seus pais, ainda criança, pois eles temiam a perseguição que os juremeiros sofriam, portanto a mestra não podia dar toques, para não chamar a atenção dos perseguidores no caso, a Policia.

Vale salientar que na Paraíba a perseguição durante o estado novo deixou marcas profundas nas religiões de Matriz africana e afroindigena.

Aos 16 anos de idade a mestra Jardecilha casou com João Paulino de Souza, saindo então de casa dos pais para morar em sua própria casa porem vizinha a casa dos seus pais (nas terras que se encontra sua cidade de jurema) teve 14 filhos sendo que biológicos se encontra apenas uma filha, Severina Paulino (Nina) que reside na mesma casa da mestra e que cuida da cidade de jurema mantendo-a ativa até os dias de hoje, e outra filha adotiva que nada faz pela cidade.

Assim que casou a mestra Jardecilha continuou consultando porem agora em sua casa, no governo de João Agripino foi liberado e reconhecido o direito dos cultos afro-indígenas na Paraíba no ano de 1966, porém no ano seguinte, em 1967 a mestra começou a dar os torés de caboclos no terreiro de sua casa, os torés de caboclos eram feitos apenas com as maracás, a mestra Jardecilha foi a primeira mestra de Alhandra a começar a realizá-los com introdução dos elús, grande sinal de originalidade e distinção.


A Mestra foi certamente protagonista nas reelaborações e contribui assim para a Umbandização da Jurema na Paraíba,

A vida da mestra Jardecilha foi dedicada inteiramente ao culto da jurema dos 9 anos até os 54, idade de seu falecimento, ela realizou inúmeros trabalhos de curas, principal atribuição dada a Jardecilha, conhecida popularmente como “TIA ZEFA”, também muito caridosa tinha sua casa sempre cheia de gente,nunca teve horário pra atender, seja de manhã, de madrugada, a tarde ela sempre estava disponível pra atender de simples consultas a casos de emergência, muito por precisarem de seus trabalhos e muitos por necessidade de fome, e favores, conhecida também como mãe da pobreza tia zefa ou mestra Jardecilha, dava refeições aos necessitados, fazia casamentos, providenciava velórios, quando os parentes não tinham condições, muitos pessoas a tomaram como madrinhas de seus filhos por terem seguro a festas e os custos, sendo assim não se espanta saber que a mestra Jardecilha morreu com mais de 600 afilhados apenas de batismos católicos, não contabilizando os seus afilhados de jurema.

A influência de Mestra Jardecilha pode ser comparado a de Maria Acaes e sua liderança e poder de articulação são merecedoras de estudos acadêmicos ainda não realizados. O sentimento de dupla pertença é uma das marcas dos grandes mestres Juremeiros.

Além de juremeira, a mestra Jardecilha também era muito católica, durante 39 anos ela realizava procissões devido a promessas, no mês de janeiro a São Sebastião, junho do Senhor São João Batista e em Dezembro da Virgem da Conceição, de quem era devota, com as procissões, ela mobilizava junto a igreja multidões de pessoas da cidade e dos municípios vizinhos. No ápice de sua mediunidade, a mestra Jardecilha já era muito conhecida, em 1973 foi convidada pelo então presidente da federação Carlos Leal para  assumir a diretoria da Federação Espírita dos Cultos Africanos do Estado da Paraíba onde se ficou até sua morte.

Durante muitos anos a jurema em Alhandra foi alvo de muitos olhares, a Mestra Jardecilha, Mestre Inácio, Mestre Biu Toré, Mestre Zé Quati, Mestre Flósculo, Mestre Zezinho do Acais, Mestre Adauto, Mestre Cesário e Mestra Damiana, valorizaram o culto da jurema de uma forma avassaladora.

Na década de 70 a mestra Jardecilha recebeu em seu terreiro a BBC de Londres, que realizou um trabalho de forma acentuada sobre os cultos da Jurema no nordeste brasileiro.

Houve um reconhecimento internacional que precisa ser retomando afim de identificar e fortalecer essa tradição.

A mãe da mestra Jardecilha deu um terreno a ela assim que casou, onde construiu sua casa, e ergueu sua cidade de jurema e firmou seu cruzeiro, seu salão era nos fundo de sua casa até o ano de 87 quando construiu de forma mais confortável seu templo.

Como relata o professor Ms. Sandro Guimarães a cidade da Mestra Jardecilha foi Plantada no contexto da Umbanda, e é composta de jurema-preta e jurema-branca e é o mais novo dos Santuários de Alhandra entre eles os pés de Jurema do Mestre Manoel Cadete, Mestre José da Paz e o do Mestre Bom Floral, além do da própria Mestra Jardecilha que plantou sua cidade seguindo as tradições dos Mestres de Alhandra pouco antes de falecer.

No ano de 2009 familiares que são contra o culto fizeram a partilha definitiva dos lotes, manobrando os limites de forma que a jurema do mestre major do dia ficasse fora do lote, A proprietária do lote em que erroneamente se encontrava a jurema ameaçou cortá-la, junta a todos conseguimos comprá-la judicialmente por 4.000,00.

Com a morte do marido da mestra Jardecilha, os herdeiros querem acordos absurdos, na esperança de aniquilarem definitivamente a cidade de jurema, começaram a invasão imprópria do bem, cortando recentemente 3 pés de juremas, a cidade de jurema hoje contem nove pés, um templo as firmações dos exus e dos pretos velhos e o cruzeiro mestre, a uma reunião no mês passado ao IPHAEP, recebemos as informações que a saída de melhor resultado seria o tombamento do valor material e imaterial da cidade de jurema, mas que precisaríamos de mais apoio, pra que o órgão se conscientize de que a cidade tem valor não só pra nós que moramos aqui e sim pra todos os da religião.

As quantias são irrisórias, as partes opostas apresentaram uma avaliação de 200.000,00 sendo repartidas em partes iguais por volta de 67.000,00 não levando em consideração os beneficio e benfeitorias feitas por nós desde que a casa e o templo foram feitos já que ninguém mais teve a posse dele depois que a mestra Jardecilha morreu. A vizinha ainda deseja 7m da profundidade, comprometendo a jurema de mestre Manoel cadete e a firmação dos exus.

Enfim faz-se necessário uma tomada de atitude para de fato salvarmos essa relíquia da Jurema e as entidades que fomentam ações afirmativas sejam no âmbito da academia ou do movimento social precisam de fato tomar uma atitude para que o tombamento ou reconhecimento como patrimônio imaterial da Paraíba e do Brasil sejam de fato uma realidade.

João Monteiro
Historiador, Especialista em Preservação de Acervos Gráficos
Membro da coordenação do QCM

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Com Ação Afirmativa é possível mudar!



Mestre Galo Preto e aluna na Escola Mariano Teixeira



A Escola Estadual Mariano Teixeira surge em pleno o governo da ditadura militar numa comunidade construída especificamente para funcionários públicos, a Vila Cardeal Augusto Álvares e Silva desenvolveu-se a margem das tradições culturais da cidade, na década de 70 o único espaço de cultura era a famosa Praça de Sena, localizada no caminho de quem vai a Vila das Lavadeiras, neste espaço um morador conhecido por Sr. Sena no ciclo momesco, manteve um tradicional desfile carnavalesco, onde algumas das Agremiações que visitavam a Vila das lavadeiras iam desfilar seus brilhos e ritmos lá, neste mesmo espaço os alunos da escola Mariano Teixeira faziam aulas de Educação Física, isto até pouco tempo atrás.


No ciclo junino existiam várias Palhoças organizadas por moradores de diversas ruas da Vila sempre com o forró tradicional e enfim no ciclo natalino a Praça de Sena era o endereço, Missa do Galo e Parquinho de diversões afora os ciclos culturais existiam outros momentos saudosos como as novenas do mês de maio e a tradicional procissão de Nossa Senhora de Fátima em outubro que passava de casa em casa durante todo esse mês e finalmente o único Terreiro da comunidade o de Dona Zefinha de Oyá que cheguei assistir parte de uma Festa de Ogum em minha adolescência, hoje extinto.


A comunidade nunca teve envolvimento nas lutas populares, tradicionalmente reduto dos seguidores do período militar e “eleitores da direita”, a partir das eleições do ex-presidente Lula e eleição do Prefeito João Paulo a comunidade passou a tomar um novo posicionamento frente as gestões públicas, contudo o único estabelecimento de ensino do governo estadual na comunidade, a Escola Mariano Teixeira ficou a margem desse processo, considerada uma Escola de médio porte, possui uma estrutura de dar inveja a muitas escolas públicas, mas não consegue sequer apoiar aos poucos professores que dedicam-se verdadeiramente a melhorar a realidade da instituição e da comunidade.


Hoje muitos jovens estão mergulhados nas drogas e na prostituição as relações com os professores a cada dia ficam mais difíceis e a gestora que se mantêm no poder há mais de 10 anos se coloca a margem dos problemas principalmente quando se trata das relações comunidade-Escola, nenhum projeto decente de cultura adentra ao estabelecimento e muitas tentativas dos professores resistentes são inviabilizadas, até mesmo o Grêmio Estudantil é mantido sobre seu extremo controle, chega a ser vergonhoso o comportamento dessa gestora, que vai totalmente de encontro ao que as políticas da atual gestão estadual propõem.


Sabemos que essa situação não é fato isolado e grande parte das Escolas públicas sofre com
esse problema, porém sabemos que as práticas esportivas e culturais são desde longe fortes
aliados para transformar-mos a realidade de milhares de jovens que por falta da presença ativa e importante do estado estão condenados ao trafico e prostituição. Acreditamos nessa transformação quando pessoas competentes e realmente comprometidas estiverem à frente dessas instituições educacionais.


Na tarde de hoje dia 14 de setembro de 2011, as Professoras Célia e Suely deram o exemplo que implementar é possível, organizaram as comemorações da Semana da Vivência e Prática da Cultura Afro Pernambucana, dentro da lei n° 13.298/07 (Lei Malunguinho), que tem objetivo de fomentar o diálogo entre sociedade civil, cultura de tradição e escolas e de celebrar a memória do líder negro Malunguinho.


Através de uma homenagem ao Mestre Galo Preto, protagonizada pelos jovens estudantes, observamos um real reconhecimento e entendimento do valor do mestre resultado das informações passadas pela Professora Célia Cabral com a coordenação pedagógica da Professora Sueli Duarte. Um exemplo a ser seguido e reconhecido com dignidade pela Secretaria Estadual de Educação.


João Monteiro
Historiador, Especialista em Preservação de Acervo, Ativista Social, Coordenação do Quilombo Cultural Malunguinho e morador há 43 anos da Vila Cardeal e Silva.

sábado, 25 de junho de 2011

Reflexão sobre A Marcha para Jesus.

O Professor Carlos Thomás vem dado ao longo dos ultimos 5 anos uma contribuição muito importante as causas LGBT e Afrodescendente em Pernambuco, seus textos nos leva a enxergar de outro angulo uma realidade que está de pano de fundo de muitas manifestações de preconceito e racismo:



Marcha para Jesus ou para matar?


A Marcha para Jesus nasceu em Londres, no ano de 1987, fundada pelo pastor Roger Forster, após a primeira outras tantas já aconteceram e vem acontecendo, inclusive aqui no Brasil, como foi o caso da 19ª ocorrida em São Paulo que atraiu aproximadamente 1 milhão de pessoas de vários credos cristãos.

Dentre os objetivos da Marcha está o de trazer as igrejas para a rua, porém a de São Paulo não teve só esse objetivo, pois entre outros estava o de pregar o ódio aos homossexuais, a crítica à decisão do STF do direito à união estável entre pessoas do mesmo sexo e o veto ao PL 122. Tudo isso promovido pelos lideres evangélicos, ou melhor, pseudo-evangélicos como Bispo Crivella, Pastor Malafaia e certamente com o aval do deputado Bolsonaro.


De acordo com meus cálculos se cada 1 pessoa da Marcha para Jesus incitada pelo discurso desses senhores resolvesse aderir à fala deles, teríamos 1 homossexual morto à pauladas, “lampadadas”, facadas ou tiros, resultando, assim , aproximadamente 1 milhão de homossexuais mortos. Tudo isso pelo simples fato do ódio pregado “em nome de Jesus”, justamente em nome do homem que foi crucificado e morto por ser oposição à opressão, às injustiças, às discriminações e à falta de amor ao próximo.


Uma contradição desses líderes à própria ideologia da doutrina do Cristo verdadeiro. O Brasil vive atualmente uma efervescência do Cristianismo com força maior no Protestantismo, isso tem atraído muita gente para as religiões evangélicas, o que deveria ser “uma bênção” (expressão usada pelos cristãos para se referir a coisas boas), mas que do meu ponto de vista não tem sido, isso porque as pregações e os discursos usados por alguns “servos do Senhor”, estão carregados de ódio, machismos, racismos, intolerâncias e homofobia; colocando em risco a paz e o amor tão pregados pelo nosso senhor Jesus Cristo, desse modo estão abandonando o verdadeiro Cristianismo que versa sobre o amor incondicional (ver episódio de Madalena e o apedrejamento assim como o do espinho da carne de Paulo), sobre o amor altruísta, sobre a caridade, e em oposição a isso reforçam violência.


Na Marcha para Jesus em São Paulo os líderes religiosos Malafaia e Crivella incitavam com seus discursos o povo à violência aos homossexuais, e quando se trata de povo, deve-se ter cuidado como se faz oposição a qualquer assunto, pois as conseqüências podem ser danosas.


O Cristianismo aqui no Brasil precisa ser repensado, re-avaliado, pois se isso não ocorrer, em pouco tempo seremos testemunhas de chacinas a homossexuais, a usuários de maconha, a povos de Religião de Matrizes Africana e Indígena e a toda pessoa que não comungue do mesmo pensamento pseudo-cristão, e tudo isso ocorrerá “em nome de Deus”, o que é um grande equivoco, pois o verdadeiro Cristo Jesus não é e nunca foi racista, homofóbico, machista e intolerante. Muita paz, muito axé.

Prof. Carlos Tomaz - carlinhostomaz@hotmail.com
Coordenação de formação da REDE AFRO LGBT
Ativista do MNU-PE
Membro do Forum Estadual de Educação Etnicorracial de PE.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Grupo de Teatro de Fantoche Baobá comemorando o dia dessa grande árvore


O Baobá, testemunha do nosso tempo!

Um dos grandes legados da África ao mundo é sem duvida o Baobá Andasonia digitata como é conhecido no meio cientifico, é uma das árvores que tem o maior tempo de vida na terra, um referencial simbólico da longevidade e, sobretudo de ancestralidade, algumas espécies chegam a ter mais de 3.000 mil anos, testemunharam em seu “silêncio” todo processo histórico do ser humano, tem sua origem em Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, Zimbábue, Botsuana e Senegal onde é o principal símbolo deste pais, provavelmente chegou ao Brasil juntamente com a entrada de milhões de negros e negras que aqui chegaram como mão de obra escrava, O Conde Mauricio de Nassau plantou alguns exemplares em seu jardim Botânico, há registro que o Dr. Manuel Arruda da Câmara escreveu ao Príncipe regente em 1810 aconselhando a introdução da árvore no Brasil, em 1874 Francisco Augusto da Costa descreve o Baobá existente na Praça da República em matéria do Diário de Pernambuco no dia 12 de maio.

Pernambuco hoje é o território de maior concentração de Baobás do mundo depois da África, constatação feita por Dr. John Rashford do College of Charleston da Califórnia - EUA e para nós afros descendentes representa a manutenção da nossa memória histórica e cultural.
Em todos os cantos do Brasil teve a presença de negros e negros, os registros seja na dança, culinária, tecnologia, linguagem, expressões da cultura popular, uma verdadeira simbiose cultural foi estruturada pelas várias etnias que aqui chegaram e todas sem exceção têm no Baobá algum referencial simbólico seja ele cultural, religioso ou étnico.

Era nas sombras dos imensos Baobás que a história das etnias eram repassadas pelos “Griôs” ou Kibandas, anciãos responsáveis pela manutenção da história local, um verdadeiro arquivo vivo e o grande Baobá era a testemunha do tempo.

Plantar um Baobá significa fortalecer a luta pela reparação dos povos afros descendentes, que durante muitos anos foram excluídos de qualquer implementação de políticas públicas direcionadas a valorização e reconhecimento da cultura afro-brasileira, como plantam os pesquisadores Professor Osvaldo Martins Engenheiro-Agronômo da Universidade Federal Rural de PE e membro da Academia Pernambucana de Ciência Agronômica, Fernando Batista da Universidade Federal de PE comprometidos com a preservação e difusão desta arvore, bem como a Professora Célia Cabral da Costa Arruda que efetivam ações afirmativas para implementação da lei 11.639/2007. O Decreto federal 5.5795/1995 que institui o dia nacional do Baobá em 19 de junho.

João Monteiro
Historiador, Especialista em Preservação de Acervos, Coordenação do Quilombo Cultural Malunguinho

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Saurê Abdias Nascimento!






Recebemos do Professor Dr. Félix Ayoh'OMIDIRE do Department of Foreign Languages, Faculty of Arts da Obafemi Awolowo University localizada em Ile-Ife, Osun-State, Nigéria, a Justa homenagem que fez ao grande baluarte de nossa luta, Abdias Nascimento, esta instituição outorgou a Abdias Nascimento o título de Doutor Honoris Causa em memorável cerimonia em 2007 e nesta ultima quarta dia 08 nos escreveu:

“Querida Elisa e toda a família afrodescendente,

Fiquei muito triste ao receber a notícia da transição do nosso querido baba Abdias deste aye para o orum. Porém, pensando melhor, me consolei com o fato de que, dentro da nossa cultura iorubana, uma pessoa do quilate do Abdias nunca sera capaz de morrer, senão subir na hierarquia. Abdias agora é orisa, pois soube superar com a sua luta ferrenha contra todos os tipos de discriminação e preconceito que vitimaram e ainda vitimam o negro não só no Brasil como também no resto do mundo.
Com efeito, o Abdias merece, hoje mais que nunca este status de ancestral, pois ele venceu todas as barreiras do tempo e do espaço na sua luta: saiu do Brasil para o mundo, levando consigo a sua luta e a sua convicção. Nos EUA mostrou aos americanos de origem africana uma dimensão mais rica de ser africano. Na Nigéria sitiou e denunciou o genocídio dos negros brasileiros, desmentindo séculos da arraigada "democracia racial". Acabou derrubando o mesmo, comemorando com o mundo inteiro a derrota inicial do racismo e todo tipo de discriminação e apartheid nas conferências de Durban em 2001, fato que prenunciou as vitórias da "Consciência Negra" no próprio Brasil, Abdias será lembrado para sempre no Brasil como o verdadeiro porta bandeira das marchas de Zumbi +, além de representar uma verdadeira parteira das políticas da Ação Afirmativa no Brasil que gerou no coração sensível do Governo Lula a criação da Seppir e a política das Cotas, dentre outras tantas vitórias que se seguiram à sanção da Lei Federal 10.639/03.

Como foi lembrado durante a intervenção do próprio Abdias como Conferencista Magna durante o IV Colóquio Global Africano organizado pelo CBAAC (órgão do Ministério da cultura da Nigéria) e apoiado pelo Ipeafro na Uerj em 2008, onde a voz do Abdias bradou durante mais de uma hora desde a sua cadeira de rodas para uma plateia composta de negr@s e africanistas dos quatro cantos do mundo, ele ABDIAS teve a sorte de ser um dos poucos heróis que tiveram a felicidade de ver e viver a realização dos frutos da sua luta, pois conseguiu viver a vitória das Ações Afirmativas que levou a sua vida inteira a planejar e executar ao lado do seu povo querido.

A nós, seus herdeiros ideológicos, étnicos e estéticos, só nos resta saudá-lo como se costuma saudar na cultura iorubana aos ancestrais que atravessam triunfalmente a húbris deste aye para ocupar seu lugar no orum:

Ká tó r'erin o d'igbo,
Ká tó r'éfòn, ó d'òdàn,
Ká tó r'éni bi Abdias Nascimento,
O d'orun Alakeji!
Ma j'òkùn,
Má j'ékòló o, Abdias,
Ohun ti wón ba nje l'ájùlé òrun ni koo bawo jè.

Bóo ba délé o kíle o,
Bóo d'óna o bèèrè wò.
Àtètèdélé ise mi l'àkójé o.
Òpòló ò, oníy`'aré o,
Èiye ire ìyèrú oò, èiyè!...

Saurê Abdias Nascimento!”


E a Doutora Elisa Larkin viúva do grande Abdias Nascimento em resposta ao Professor Dr Félix, também nos enviou a mensagem:
“Querido irmão Felix, que alegria receber sua mensagem!

Através de você eu quero saudar toda a comunidade da nossa querida Universidade Obafemi Awolowo que outorgou a Abdias o título de Doutor Honoris Causa em memorável cerimônia em 2007.

Segue o link para um pequeno vídeo do velório e do ato de sétimo dia realizado no sítio histórico do Cais do Valongo e na sede da Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria e pela Vida, no Rio de Janeiro, dias 26 e 31 de maio passados. Quando entrar o quadro da Rio TV Câmara, clicar na opção "Edições de 26/05 e 31/05/2011".

http://www.camara.rj.gov.br/riotv_verprog_camarariotv.php

Estamos nos preparando para cumprir o desejo de Abdias e levar seus restos mortais à Serra da Barriga, local da República de Palmares, em 13 de novembro próximo. A idéia encaminhada pelo movimento negro é de plantarmos um pé de baobá e um pé de iroko em sua homenagem.

Um grande abraço extensivo a todos os nossos amigos e irmãos na Nigéria!”
Nossos respeitos a Doutora Elisa que junto a nossa referência de luta Abdias Nascimento fomentou discussões e instigou pesquisas, trazendo a luz possibilidades reais de rever nossa historia ancestral!
Sentimos a perda, porém acreditamos de onde Abdias Nascimento estiver, fiscalizará melhor e instigará toda nossa luta.

Salve Zumbi! Salve Malunguinho! Salve Abdias!



João Monteiro


Historiador - Coordenação do Quilombo Cultural Malunguinho