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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Com Ação Afirmativa é possível mudar!



Mestre Galo Preto e aluna na Escola Mariano Teixeira



A Escola Estadual Mariano Teixeira surge em pleno o governo da ditadura militar numa comunidade construída especificamente para funcionários públicos, a Vila Cardeal Augusto Álvares e Silva desenvolveu-se a margem das tradições culturais da cidade, na década de 70 o único espaço de cultura era a famosa Praça de Sena, localizada no caminho de quem vai a Vila das Lavadeiras, neste espaço um morador conhecido por Sr. Sena no ciclo momesco, manteve um tradicional desfile carnavalesco, onde algumas das Agremiações que visitavam a Vila das lavadeiras iam desfilar seus brilhos e ritmos lá, neste mesmo espaço os alunos da escola Mariano Teixeira faziam aulas de Educação Física, isto até pouco tempo atrás.


No ciclo junino existiam várias Palhoças organizadas por moradores de diversas ruas da Vila sempre com o forró tradicional e enfim no ciclo natalino a Praça de Sena era o endereço, Missa do Galo e Parquinho de diversões afora os ciclos culturais existiam outros momentos saudosos como as novenas do mês de maio e a tradicional procissão de Nossa Senhora de Fátima em outubro que passava de casa em casa durante todo esse mês e finalmente o único Terreiro da comunidade o de Dona Zefinha de Oyá que cheguei assistir parte de uma Festa de Ogum em minha adolescência, hoje extinto.


A comunidade nunca teve envolvimento nas lutas populares, tradicionalmente reduto dos seguidores do período militar e “eleitores da direita”, a partir das eleições do ex-presidente Lula e eleição do Prefeito João Paulo a comunidade passou a tomar um novo posicionamento frente as gestões públicas, contudo o único estabelecimento de ensino do governo estadual na comunidade, a Escola Mariano Teixeira ficou a margem desse processo, considerada uma Escola de médio porte, possui uma estrutura de dar inveja a muitas escolas públicas, mas não consegue sequer apoiar aos poucos professores que dedicam-se verdadeiramente a melhorar a realidade da instituição e da comunidade.


Hoje muitos jovens estão mergulhados nas drogas e na prostituição as relações com os professores a cada dia ficam mais difíceis e a gestora que se mantêm no poder há mais de 10 anos se coloca a margem dos problemas principalmente quando se trata das relações comunidade-Escola, nenhum projeto decente de cultura adentra ao estabelecimento e muitas tentativas dos professores resistentes são inviabilizadas, até mesmo o Grêmio Estudantil é mantido sobre seu extremo controle, chega a ser vergonhoso o comportamento dessa gestora, que vai totalmente de encontro ao que as políticas da atual gestão estadual propõem.


Sabemos que essa situação não é fato isolado e grande parte das Escolas públicas sofre com
esse problema, porém sabemos que as práticas esportivas e culturais são desde longe fortes
aliados para transformar-mos a realidade de milhares de jovens que por falta da presença ativa e importante do estado estão condenados ao trafico e prostituição. Acreditamos nessa transformação quando pessoas competentes e realmente comprometidas estiverem à frente dessas instituições educacionais.


Na tarde de hoje dia 14 de setembro de 2011, as Professoras Célia e Suely deram o exemplo que implementar é possível, organizaram as comemorações da Semana da Vivência e Prática da Cultura Afro Pernambucana, dentro da lei n° 13.298/07 (Lei Malunguinho), que tem objetivo de fomentar o diálogo entre sociedade civil, cultura de tradição e escolas e de celebrar a memória do líder negro Malunguinho.


Através de uma homenagem ao Mestre Galo Preto, protagonizada pelos jovens estudantes, observamos um real reconhecimento e entendimento do valor do mestre resultado das informações passadas pela Professora Célia Cabral com a coordenação pedagógica da Professora Sueli Duarte. Um exemplo a ser seguido e reconhecido com dignidade pela Secretaria Estadual de Educação.


João Monteiro
Historiador, Especialista em Preservação de Acervo, Ativista Social, Coordenação do Quilombo Cultural Malunguinho e morador há 43 anos da Vila Cardeal e Silva.

sábado, 11 de junho de 2011

Patrimônio Afro religioso em alerta!

Mãos de Ifatoogùn, Paulo Bráz Criôt do Ministério da Cultura e Kimbanda do Quilombo Cultural de Malunguinho.



“A EMPETUR dá inicio às ações do projeto de Turismo Étnico, dando destaque após visita técnica ao Terreiro Ylê Axé Airá Ibona, em Pirapama", insiste dizendo que, o referido “Terreiro foi fundado onde no passado eram Terras do Barão de Pirapama” (publicado do Diário Oficial do Estado de Pernambuco dia 10, pg.02) com total respaldo do Antropólogo Raul Lody, ficando claro a total falta de comprometimento deste com as verdadeiras tradições de Pernambuco, a matéria ainda traz uma fala da Yalorixá do Terreiro dizendo que:"Trazer turistas para nosso terreiro vai ajudar na renda que precisamos para manter o espaço e as pessoas vão conhecer melhor nossa cultura". desde quando o povo de Terreiro precisou de turistas para se manterem? Acredito neste projeto, pois entendo ser necessário ao programa de inclusão e reparação histórica que os gestores governamentais alardearam durante a campanha eleitoral, só que temos que ficar alerta para nossa história não virar contos da Carojinha, ser o exótico, como foi tratada a “Venuus noire”, Saartjie em 1810 que virou objeto de entretenimento da nobreza e chamou a atenção dos cientistas e atração de circo(Diário de Pernambuco, pg.F3) é assim que sempre fomos tratados pelos descendentes da falsa nobreza portuguesa e agora os mesmo querem se locupletar de nossa cultura religiosa.

No canal www.youtube.com/empeturpress, o dito antropólogo faz suas considerações.

Bom, escrevo estas breves linhas para registrar nossa insatisfação com os Sacerdotes e sacerdotisas tradicionais que insistem em serem massa de manobra, mesmo com tantas reuniões, cursos, encontros e caminhadas alguns destes insistem em não levar em consideração suas próprias histórias e tradições ancestrais, os resquícios coloniais continuam bem vivos e agora mais do que nunca tentam trazer a história dos repressores e escravocratas em detrimento da historia dos reprimidos, humilhados e excluídos, tem aumentado substancialmente as "Yás Funfun ti ara dúdú" que têm melhor prestigio junto aos gestores que desconhecem geralmente o histórico do povo de Terreiro de Pernambuco e se iludem com as performances de vestuários e com um conjunto de línguas estranhas, nunca o Yorubá.

Nossos grandes Sacerdotes e Sacerdotisas continuam esquecidos em seus humildes Terreiros localizados nos Altos, Becos e Vielas de nossa cidade e de certa forma protegidos! Precisam de ações afirmativsa de infra estrutura e de saúde.

Agora quem comprar um Casarão antigo, Engenho, Palacete etc. e transformá-lo num Terreiro, terá o respaldo governamental? Pois as paredes, os assentamentos o chão e as consciências coletivas acumuladas de Axé ancestral perdem seu valor? Faz-se necessário identificar quais os templos que detém tais acúmulos, pois lá moram humanos que passaram longo período de exclusão social e política.
Como não sou sacerdote e nunca tive a menor pretensão de ser-lo, faço votos que a consciência das novas gerações sensibilizem-se na perspectiva de manter a dignidade ancestral, procurem ampliar seus conhecimentos sacerdotais sem perder de vista a memória, a tradição e principalmente sua história.

Como Omo Xangô com 26 anos de Religião e 6 anos de iniciado me sinto totalmente a vontade para fazer este registro.

João Monteiro
Omo Xangô Obá Aduban
Coordenação do Quilombo Cultural Malunguinho
Historiador, Especialista em Preservação de Patrimônio Documental

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Carta de apoio integral à Festa da Lavadeira - Quilombo Cultural Malunguinho.




Festa da Lavadeira, raiz que vem do mar!

O maior evento/festa de cultura popular, tradicional e de terreiro de nosso Estado é sem duvida a Festa da Lavadeira.

Nesta poderosa reunião de diversos segmentos da cultura brasileira surge o Axé do Orixá Iyemojá como o agregador de todas as cores, etnias, pensamentos, lutas, amores e transcendências. Percebe-se que o Axé deste Orixá quebra barreiras e reorganiza todo um povo que historicamente foi apartado e ceifado de sua cidadania plena e de seu direito de colocar-se no cenário cultural, como atrações e manifestações de valor estético plausível. Este recalque chama-se racismo histórico, intolerância e pré-conceito de uma sociedade embranquecida pelos fatos e planos históricos que conhecemos bem.


Mestre Galo Preto cantando para um público de mais de 10 mil pessoas. Foto de Mariana Lima.

Em Pernambuco a cultura popular e tradicional é mantida pelo povo negro e índio. Que com orgulho mantém viva a chama da originalidade única que só o Brasil possui. Portanto, podemos desde já perceber que as teorias gilberto-freyianas que instituíram a partir da academia em nós o pensamento de “democracia racial” nunca existiu e se vir a se tornar realidade, deverá se chamar “democracia étnico social”, visto que o conceito de raça perdeu sua legitimidade frente aos estudos culturalistas realizados pela academia.



A idéia de transformar um terreiro de candomblé em um ponto que emana agregação entre povos do mundo é o confronto com a antiga idéia de que no período do escravismo brasileiro era plano para destruir estes povos negros que, aqui em nossas terras, foram submetidos a um processo de separação familiar, étnica e cultural. A Festa faz o caminho inverso, agrega, chama pra junto, reafirma amizades, congrega os povos. Isso é muito forte e revolucionário, porque disso emana a esperança de uma nova era para o povo que tem no sangue e na pele o registro da riqueza ancestral da cultura. A Lavadeira é instrumento dos Orixás, Mestres, Mestras, Caboclos, Exús e Trunqueiros, no resgate do que no passado foi vilipendiado pelo sistema de dominação dos povos da Europa, e por isso merece respeito de toda sociedade, que ainda não reparou os danos históricos que a grande maioria deste país sofreu. A Lavadeira também é reparação!


Gira de Candomblé para Iyemojá dentro do Terreiro da Lavadeira. Foto de João Monteiro

Não percebemos a Festa como território do “sagrado” e do “profano”. Vai muito além disso. Nela, tem a própria transcendência da polissemia sagrado e não sagrado, profano e não profano. A Festa é o território da experiência da transcendência completa das linguagens, onde as pessoas vão para reverenciar a vida em sua totalidade, a vida que veio da água, a vida que está na natureza e em tudo, quase uma concepção deísta de mundo, coisa rara hoje no nosso universo, que ainda insiste em separar o sagrado do compreendido como não sagrado, na Festa, é mais...

Iyemonjá a grande homenageada reina absoluta como a grande iyá dúdú ti ara ayé (Mãe negra do povo da terra), que com seu Odú verdadeiro de Mãe abre os braços para mais de 20 mil pessoas de diversas tribos, diversos segmentos, diversos pensamentos, diversos gostos, abre os braços para a diversidade cultural enfim.


Público na Festa.Foto de João Monteiro

Como o Estado pernambucano e os empresários não enxergam isso? Por que acabar com essa Festa? Isso logo nos remete ao pensamento do período colonial, onde o negro e o índio não podiam tocar seu tambor, fazer seus rituais, viver em liberdade... Liberdade essa que com as atitudes tomadas no espaço o Paiva, onde acontece a Festa, se apresentam de forma assustadora, com uma suposta “privatização da praia”, dos espaços legalmente públicos, como atesta nossa constituição sobre o uso público das praias. públicos... Nossa, onde estamos, na colônia de novo?

Isso tudo é muito perigoso. Esta situação ressuscita os fantasmas do passado, do tempo que o poder dos ricos e da Igreja imperava sobre os “sem espírito” nas terras de “ninguém”. Absurdo em todos os âmbitos, não há argumentos que justifiquem o processo para destruir esse evento, a não ser o racismo, coisa que infelizmente compões nossa sociedade e que aflora todos os dias. Muitas vezes tal racismo toma proporções tão grandes que somente os olhos azuis podem enxergar com naturalidade, pois no passados de seus ancestrais isso tudo era natural, matar, acabar, destituir a liberdade, ceifar a alma sem pena...

Sabemos que nos discursos mais recentes, os gestores públicos alardeiam sobre a implementação de políticas públicas para Promoção da Igualdade Étnico “Racial”, portanto, onde estão os órgãos que eram pra intervir neste caso? Na verdade, não existem em Pernambuco de fato, pois sequer uma secretaria foi pensada no plano de governo atual. Isso também revela a face do nosso Estado.

Mas não se iludam, Iyemonjá Ogunté (àquela que possui Ògún) protege Eduardo Melo, o idealizador da Festa da Lavadeira. Ele sempre foi instrumento desta divindade. Esperamos e confiamos que a justiça se coloque contra o racismo, a exclusão, a arbitrariedade, e também contra a repetição da história dos poderosos que massacraram e massacram os “miseráveis”.

As raízes vêm do mar... 25 anos de tradição é a afirmação de que a cultura popular junta tem força, assim seguiremos.

Malunguinho está de ronda na Jurema, nas fronteiras com seus Estrepes!

Salve o povo e a cultura que é nossa. Fé e irmandade!



Olinda/Recife 22 de Abril de 2011




Alexandre L’Omi L’Odò

Pesquisador, Produtor Cultural, Músico, Sacerdote Iyawò e Juremeiro.




João Monteiro

Historiador, Especialista em Preservação de Patrimônio, Sacerdote Iyawò e Juremeiro.



QCM.

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Visitem o site da Lavadeira: www.festadalavadeira.blogspot.com